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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Conto de Jardim: Equinócio

Aquela manhã de setembro estava insuportável. Desde que voltara ao trabalho, sócia numa pequena empresa, as sextas-feiras eram um tormento.
Dois dos colegas nunca se entendiam e perdiam um tempo enorme tentando provar que estavam certos, ela tão sonhadora na vida pessoal era extremamente prática no trabalho e se via sempre forçada a tomar as rédeas da situação.
Enquanto brigavam ela com uma enorme dor de cabeça se esforçava para terminar os relatórios semanais e deixar pronta a pauta da nova semana.
Aviso do porteiro, encomenda para ela.
Começou a rasgar o papel na sala comum aos sócios, se deteve assim que viu o nome da loja na pequena caixa. Foi para a sala privada e sorriu quando terminou de abrir. Lingerie preta com renda francesa. Com certeza ele havia visto seus olhos cobiçando as peças quando passaram em frente à loja.
Vivem o doce desequilíbrio dos sentimentos intensos.Separam-se e juntam-se, perdem-se e acham-se.
Divagava sobre o seu amor em meio aquele caos de papéis e contas.
Som de mensagem. Um SMS: Te aguardo...agora!!
Deixa um bilhete na secretária e sai apressada.
Ele a recebe com um sorriso e um beijo demorado.
No carro as botas de montaria castanhas , uma cesta enorme, mala.
Ia ser "raptada" para a serra. As crianças estavam na casa dos tios, ele avisava.
Caixa de presente na mão, deixa o vento bater na cara.
Equilibram-se nas primaveras e outonos, quando as almas milagrosamente se fazem harmônicas.
Acordam junto com o sol e vão colher o dia. Andam agora a cultivar auroras.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Conto de Jardim: Coisas simples


Passadas as festas a vida voltou para sua confortante rotina.
Ela a salvo em sua cozinha e na biblioteca da aldeiota perdida no meio do nada. Ele se aventurando pelo mundo a trabalho.
Mas a rotina a dois é cheia de intensidades.
Naquela manhã dormiu um pouco além da conta,ele saiu sem acordá-la. Era dia de almoçar sozinha. Resolveu passar o resto de manhã no jardim.
Sentou-se num banco no canto entre as roseiras e abriu o livro que estava lendo há semanas. Surpreendeu-se com um papel dobrado. Letra dele, homem de muito carinho e poucas palavras escritas. Entre aspas um bilhete:

"Queria partilhar contigo os momentos menores

da minha vida,

porque os grandes já são teus."

(Poema de JG de Araujo Jorge do livro – A Sós – 1958 )

  

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Conto de Jardim: O Ano Novo


Depois de um ano tão difícil e ao mesmo tempo com tantos obstáculos vencidos só pensava duas coisas: "Como eu gosto da minha vida e como são tolas as promessas de ano novo".
Parar de fumar (nunca havia feito essa promessa, engravidou e simplesmente nunca mais fumou), fazer dieta (depois de certa idade o que importa é não ultrapassar certos limites perigosos de peso, corpo ideal é delírio de menina insegura), ser mais tolerante (isso aprendeu depois dos 40 anos e não num primeiro de janeiro qualquer)...
Detestava as festas de reveillón com muita bebida e quase nenhuma comida,conforto zero e zilhões de pessoas desconhecidas ao redor. Decidiram partir rumo ao sol, porém apenas para assistir a queima de fogos. Depois aconchego de uma festinha me família, mesa posta,velas e flores.
Lembra-se sempre do avô nessa data: "Olha pro céu,olha o ano velho indo embora e o ano novo chegando." E das lamúrias da avó,:"Para o ano eu não estarei mais aqui" (viveu 93 anos).
Definitivamente não era uma festa dela,amava o Natal, mas as comemorações de Ano Bom traziam sempre um certo tédio, um gosto meio cinza na boca. Ano Bom é estar cercada de amor.
Que viesse mais um ano, sem promessas, sem tantas expectativas, um ano de sentimentos plenos e guarda-roupa arrumado.
Com amor, rumo ao sol..

domingo, 27 de dezembro de 2009

Conto de Jardim: O Natal


Teve um ano difícil. A decisão de deixar para trás a casa confortável, os amigos, os parentes e até mesmo os meninos adolescentes não tinha sido fácil.
Sua mãe tinha sido uma santa quando trouxe pra ela a responsabilidade por seus rapazes. O marido mais uma vez demostrou um carinho maior que qualquer outra pessoa, decidiu trabalhar menos e comprou aquele chalé no meio do nada.
A filhota, sua bonequinha, sua única companhia de segunda a quinta.
Os meses no campo tinham feito bem,estava mais gorda,é verdade, mas tinha a pele mais brilhante e os cabelos estavam compridos e sedosos. Voltou a gargalhar como antes.
Resolveu transformar a casinha num lugar mágico. O primeiro Natal longe do "mundo", cercada de neve, de vento, de casinhas simples. Uma aldeia, onde todos se conhecem e se cumprimentam com um bom dia.
Tricotou suas primeiras peças, uma meia para esperar o bom velhinho e um cachecol vermelho para sua pequena.
Forno quente, comida farta,presentes na árvore e um presépio singelo. Tinha tantos afazeres que nem viu a hora passar.
Anoiteceu cedo e nem sombra dos meninos e Ele. Um aperto no estômago trouxe de volta emoções que preferia esquecer.
Medo.

Penteou o cabelo da pequenina, pôs o vestido novo. Mesa arrumada, luzes piscando.Lá fora, só o vento.
Resolveu contar uma história, A Pequena Vendedora de Fósforos. Ficaram as duas ali absortas na tristeza da protagonista. Adormeceram abraçadinhas sob a manta xadrez.
Acordaram assustadas com uma lufada de vento gelado. Os homens da casa. Dez e meia da noite. Pai ao piano, risadas alegres. Os meninos encantados com o velho trenzinho deslizando nos trilhos embaixo da árvore. As antigas bonecas de porcelana traziam um brilho especial aos olhos da filha.
Correu para a cozinha, por pouco o rei da ceia não vira carvão. Respirou aliviada. Estava a salvo.
Sentou-se à mesa e sorriu, aos poucos tinha sua vida de volta.


terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Conto de jardim:Conto desse lugar


Teve dificuldades em dormir. Foi uma noite conturbada. Calor, pensamentos desconexos, lembranças que preferia esquecer. Insetos!
Antes das cinco da manhã resolveu acabar com o sofrimento. De hoje não passava.
Tomou uma ducha bem quente, vestiu a roupa de banho, o vestido leve que mais gostava e calçou uma sandália rasteira.
Penteou os longos cabelos, pegou a bolsa enorme e os óculos escuros.
Ligou o carro e saiu com os vidros abertos deixando que o vento da manhã invadisse as narinas.
De hoje não passaria.
Chegou à margem do imenso rio e desceu a escadinha íngreme bem onde as águas seguiam numa enorme curva.
Descalçou as sandálias e arriscou molhar os pés. Sentiu a força da água.
Subiu os degraus de volta, entrou no carro e pegou a estrada.
Depois de mais de quarenta minutos avistou o mar. Ondas violentas. A luz do sol filtrada pela neblina matinal.
De hoje não passaria.
Tirou o vestido leve e foi caminhando rumo às ondas violentas.
A primeira veio forte e encobriu seu corpo. Mergulhou e nadou vigorosamente. Avançou mar adentro. Sentiu uma energia estranha.
De hoje não passaria.
Depois de longos minutos enfrentando as vagas daquele mar que conhecia tão bem, nadou de volta à praia.
De hoje não passaria.
Deixou pra trás tudo que incomodava sua alma tumultuada.
Sorriu revigorada. Finalmente seu ano novo havia começado.