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sexta-feira, 9 de abril de 2010

"Mas eis que chega a roda viva..."


Roda Viva

Walnize Carvalho

Na banca de revistas,
Grupo de homens
Filando
Leitura de jornais.

No umbral da janela,
Roda de pássaros
Disputando
Farelos de pão.

Na porta da igreja,
Cacho de velhinhas
Rezando
Oração matinal

No meio da praça
Conjunto de transeuntes
Ouvindo
Pregação do vendedor.

Na frente da escola
Penca de estudantes
Concorrendo
Vagas de ensino.

Na entrada da repartição,
Aglomerado de rapazes
Pleiteando
Emprego definitivo.

No azul do céu,
Enorme círculo dourado
Iluminando
A roda viva da cidade.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Conto de Jardim: Coisas simples


Passadas as festas a vida voltou para sua confortante rotina.
Ela a salvo em sua cozinha e na biblioteca da aldeiota perdida no meio do nada. Ele se aventurando pelo mundo a trabalho.
Mas a rotina a dois é cheia de intensidades.
Naquela manhã dormiu um pouco além da conta,ele saiu sem acordá-la. Era dia de almoçar sozinha. Resolveu passar o resto de manhã no jardim.
Sentou-se num banco no canto entre as roseiras e abriu o livro que estava lendo há semanas. Surpreendeu-se com um papel dobrado. Letra dele, homem de muito carinho e poucas palavras escritas. Entre aspas um bilhete:

"Queria partilhar contigo os momentos menores

da minha vida,

porque os grandes já são teus."

(Poema de JG de Araujo Jorge do livro – A Sós – 1958 )

  

domingo, 27 de dezembro de 2009

Conto de Jardim: O Natal


Teve um ano difícil. A decisão de deixar para trás a casa confortável, os amigos, os parentes e até mesmo os meninos adolescentes não tinha sido fácil.
Sua mãe tinha sido uma santa quando trouxe pra ela a responsabilidade por seus rapazes. O marido mais uma vez demostrou um carinho maior que qualquer outra pessoa, decidiu trabalhar menos e comprou aquele chalé no meio do nada.
A filhota, sua bonequinha, sua única companhia de segunda a quinta.
Os meses no campo tinham feito bem,estava mais gorda,é verdade, mas tinha a pele mais brilhante e os cabelos estavam compridos e sedosos. Voltou a gargalhar como antes.
Resolveu transformar a casinha num lugar mágico. O primeiro Natal longe do "mundo", cercada de neve, de vento, de casinhas simples. Uma aldeia, onde todos se conhecem e se cumprimentam com um bom dia.
Tricotou suas primeiras peças, uma meia para esperar o bom velhinho e um cachecol vermelho para sua pequena.
Forno quente, comida farta,presentes na árvore e um presépio singelo. Tinha tantos afazeres que nem viu a hora passar.
Anoiteceu cedo e nem sombra dos meninos e Ele. Um aperto no estômago trouxe de volta emoções que preferia esquecer.
Medo.

Penteou o cabelo da pequenina, pôs o vestido novo. Mesa arrumada, luzes piscando.Lá fora, só o vento.
Resolveu contar uma história, A Pequena Vendedora de Fósforos. Ficaram as duas ali absortas na tristeza da protagonista. Adormeceram abraçadinhas sob a manta xadrez.
Acordaram assustadas com uma lufada de vento gelado. Os homens da casa. Dez e meia da noite. Pai ao piano, risadas alegres. Os meninos encantados com o velho trenzinho deslizando nos trilhos embaixo da árvore. As antigas bonecas de porcelana traziam um brilho especial aos olhos da filha.
Correu para a cozinha, por pouco o rei da ceia não vira carvão. Respirou aliviada. Estava a salvo.
Sentou-se à mesa e sorriu, aos poucos tinha sua vida de volta.


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Felicidade


Hoje essa sou eu assim inteira.
Sem medos, disposta a pular sem redes.
Com uma sede de vida que ninguém ousa me roubar.

Hoje essa sou eu.

Sem medo ser feliz..
Essa...sou EU
saltando rumo ao céu,

com a primavera a esperar no horizonte...

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Blogagem coletiva: Dormindo no Quarto de Segredos


...


A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.


...


Eros e Psique (trecho) -Fernando Pessoa


Em sonhos vamos longe, em sonhos somos capazes de inventar países,somos capazes ganhar asas.


Sonhar é maneira otimista de fazer planos e caminhar rumo ao sol, rumo a vida.


Os sonhos ganham mais cores se antes de dormir ganhamos um beijo de boa-noite.


Noites bem sonhadas são abre-alas para um dia bem vivido.


Que venham os sonhos, as noites de lua, os beijos de boa-noite e as "rosas e rios e manhãs claras ".


Que venha a vida que como diz a grande Cecília Meireles "só é possível reinventada".


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Tarde sem vento


Uma sensação de sufoco por causa do calor fora de época ou por motivos menos climáticos.

O fim de tarde não trazia boas promessas ou um horizonte belo. O cinza da cidade se espalhava pela alma ou o cinza da alma nublava os olhos.

Um bando de andorinhas alardeava o verão fora de hora.

No meio da multidão, a sensação de não ser reconhecida por nenhuma daquelas caras de certa forma a confortava. Mas viu esse pequeno conforto ser ameaçado. Esquivava-se da cara conhecida, não queria abraços, beijos e – o pior- trocar palavras. Conseguiu escapar.

Respirou fundo e venceu a fumaça da comida de rua e dos veículos feito formigas atarantadas em fim de dia.

Venceu o medo, o enfado e procurou em vão as tais andorinhas. Decerto foram anunciar o verão em outra freguesia.

Os ruídos ensurdecedores se transformaram em silêncio opressor. Estava chegando em casa, carregando nos ombros o peso de viver, o peso do mundo.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Sorrisos, lágrimas e asas


Por vezes carregava uma dor etérea, como de algumas madonas sacras.

Na maior parte do tempo era alegre como uma cantiga primaveril.

Tinha uma fé quase infantil, fé de menina. Rezava pra anjinhos e santos e era fascinada por velas.

Dos anjos tomou emprestadas as asas.

Anda por ai alada e confusa, mas feliz... ou quase.