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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Maria Alice e a morte

Maria Alice é a minha amiga mais próxima. Digo que nos conhecemos desde sempre. Tem uma rabugice única, um bom coração e é a mais passional das criaturas, o que pode ser muito ruim ou muito bom.

Minha amiga tem teorias singulares sobre várias coisas, a teoria sobre a morte e os fatos que a envolvem são de fazer rir.

Odeio gente que não sabe se comportar em velório. Velório é lugar de dor e não de contar piadas “para fazer esquecer o sofrimento” como os engraçadinhos inconvenientes apregoam.
Velório não é lugar para roupas coloridas, nem lugar para decotes. Eu já avisei: quem aparecer vestida de maneira inadequada no meu velório vai arcar com as consequências. Eu volto para puxar o pé na mesma noite.
Acho tão bonito uma viúva de luto. Hoje em dia esqueceram o luto. Acho o luto fundamental para a saúde emocional. Ele tem sua razão de ser. É momento de chorar, de coração dorido. Quem não vive o luto paga o preço em algum momento. E para isso um pretinho básico ajuda muito.
Detesto escândalo em velório. Choro verdadeiro não é escandaloso. Desmaios também me irritam. Quem sofre de verdade, chora, chora sem som, abraça os amigos, molha o rosto sempre que sente um nó na garganta. Gente que ameaça se jogar no túmulo para mim é sem educação e falsa. Quem sofre, apenas chora, chora muito. Se usar óculos escuros fica sem dúvida um choro beirando á perfeição.
Gosto de véus negros, pena que hoje quase ninguém usa chapéus com véu então... No velório do meu marido ameacei usar um chapéu, fui demovida da idéia. Usei meu véu negro e um terço. Chorei muito. Gosto de chorar.
Usei um mês de luto fechado e outros tantos de luto menos rigoroso. Vivi minha dor. Sobrevivi.

Essa é apenas a primeira das histórias da minha amiga, vou contar sempre que der vontade. Seu nome foi trocado por razões óbvias.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A dor de mudar


Ainda que com dor

Walnize Carvalho

Ainda que com dor
é necessário
jogar fora
papéis entulhados
nas gavetas.

Ainda que com dor
esquecer
amizades sucateadas
amores
não correspondidos.

Ainda que com dor
tirar
do fundo dos armários
retalhos
desbotados.

Ainda que com dor
é preciso
arrancar, sem anestesia
o medo
e
o medo
de perder o medo.

Ainda que com dor
retirar
as teias
dos cantos dos
cômodos,
o mofo
das prateleiras
do
comodismo.

Ainda que com dor
faxinar da
Alma
os maus presságios.

Ainda que com dor
extrair a fórceps
qualquer
sentimento
de
CULPA
E tentar um novo CAMINHO.

*(Uma eterna Aprendiz da vida)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Alguma coisa está fora da ordem...

O post abaixo,chamado Portfólio foi um trabalho de um curso de formação do qual participo; tinha que ser publicado num blog por isso aproveitei o espaço existente.

Pra não perder o “tom” segue a cópia de um post lá do meu Todos os Sonhos de Abril.

Onze de setembro


Onze de setembro

E não por acaso
Perco hoje um bom pedaço de mim.
Não por acaso é um dia sem sol
Sem flores
Onze de setembro
Sem cores
Sem ainda a primavera
Que diz que vem, mas será?
Onze de setembro
Raízes arrancadas à força
Deixando crateras aqui...

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Dor dela


Mentiras Ai quem me dera uma feliz mentira
que fosse uma verdade para mim!
J. DANTAS

Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar pousa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito meu?

Ai, se o sei, meu amor! Em bem distingo
O bom sonho da feroz realidade...
Não palpita d´amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!

Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais
O gelo do teu peito de granito...

Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Tarde sem vento


Uma sensação de sufoco por causa do calor fora de época ou por motivos menos climáticos.

O fim de tarde não trazia boas promessas ou um horizonte belo. O cinza da cidade se espalhava pela alma ou o cinza da alma nublava os olhos.

Um bando de andorinhas alardeava o verão fora de hora.

No meio da multidão, a sensação de não ser reconhecida por nenhuma daquelas caras de certa forma a confortava. Mas viu esse pequeno conforto ser ameaçado. Esquivava-se da cara conhecida, não queria abraços, beijos e – o pior- trocar palavras. Conseguiu escapar.

Respirou fundo e venceu a fumaça da comida de rua e dos veículos feito formigas atarantadas em fim de dia.

Venceu o medo, o enfado e procurou em vão as tais andorinhas. Decerto foram anunciar o verão em outra freguesia.

Os ruídos ensurdecedores se transformaram em silêncio opressor. Estava chegando em casa, carregando nos ombros o peso de viver, o peso do mundo.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Sorrisos, lágrimas e asas


Por vezes carregava uma dor etérea, como de algumas madonas sacras.

Na maior parte do tempo era alegre como uma cantiga primaveril.

Tinha uma fé quase infantil, fé de menina. Rezava pra anjinhos e santos e era fascinada por velas.

Dos anjos tomou emprestadas as asas.

Anda por ai alada e confusa, mas feliz... ou quase.