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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Tarde sem vento


Uma sensação de sufoco por causa do calor fora de época ou por motivos menos climáticos.

O fim de tarde não trazia boas promessas ou um horizonte belo. O cinza da cidade se espalhava pela alma ou o cinza da alma nublava os olhos.

Um bando de andorinhas alardeava o verão fora de hora.

No meio da multidão, a sensação de não ser reconhecida por nenhuma daquelas caras de certa forma a confortava. Mas viu esse pequeno conforto ser ameaçado. Esquivava-se da cara conhecida, não queria abraços, beijos e – o pior- trocar palavras. Conseguiu escapar.

Respirou fundo e venceu a fumaça da comida de rua e dos veículos feito formigas atarantadas em fim de dia.

Venceu o medo, o enfado e procurou em vão as tais andorinhas. Decerto foram anunciar o verão em outra freguesia.

Os ruídos ensurdecedores se transformaram em silêncio opressor. Estava chegando em casa, carregando nos ombros o peso de viver, o peso do mundo.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Um sabiá no meio do caos...


Um dia insuportavelmente quente, a taxa de juros, um calo no pé, as contas de início de ano, a crise mundial.
Caminhava atormentada por essas questões num dos lugares mais feios do mundo ( a Avenida Visconde do Rio Branco, nossa fétida Beira Valão, próximo a decrépita Rodoviária Velha) quando no meio do caos urbano surge um som de assobio.
Me virei para descobrir quem era o feliz cidadão desfilando sua alegria "apesar de..." por ali. Imediatamente me dei conta que precisava voltar ao meu estado normal. Eu também sou uma cidadã que se alegra "apesar de" ou melhor "por causa de".
Se o calor é infernal ou as coisas andam difíceis também tenho muito mais motivos para me sentir bem.
Aquele anônimo me deu uma "situada". Fui a uma consulta médica e fui até capaz de fazer ouvidos moucos para uma mulher que reclamava sem parar de tudo e de todos sentada à minha frente. Fui recebida com um sorriso acolhedor por meu médico, saí da consulta e fui saudada pela mãe- natureza.
Uma chuva deliciosa de verão me esperava na rua. Dispensei o guarda-chuva de florinhas cor-de-rosa e deixei a água me lavar a alma (não faço escova nem chapinha!!!).
Hoje eu não chorei junto com o céu. A chuva me iluminou o dia.