sexta-feira, 23 de julho de 2010

Vocações


Walnize Carvalho

- O que você vai ser quando crescer? – perguntaram à menina do cacho dourado. E ela prontamente respondera, como aliás, por certo responderiam meninas de cabelos de franja, de rabos de cavalo, de laços de fitas, de toda uma geração igual à dela: - Professora!
E assim foi que o tempo incumbiu-se de fazê-la exercer a profissão profetizada em sua inocência dos sete anos.
Espelhada em doces lembranças como a de ir de mãos dadas para a escola com a mestra que era sua vizinha, ou a de brincar de professora com primos que vinham do interior (com direito a “ditado” e “redação”) sentira que fora boa mestra nos alguns anos que estivera em sala de aula.
O grupo escolar em distrito a vinte e dois quilômetros da cidade, por lá estivera em dias de sol, em dias de chuva e até grávida dos dois filhos sem nunca faltar à doce missão...
Depois várias vocações surgiram em seu caminho: dublê de mãe, de dona de casa, de avó, de contadora de histórias, de poeta...
Com o tempo passando notara que o bom exercício delas, se devia ao fato de que se tornara mais aluna do que educadora.
E, em dias de reflexão, revendo no currículo o campo “habilidades profissionais” percebera que a na Escola da Vida não havia sido reprovada na matéria Boa Vontade e uma forte constatação: sempre tivera VOCAÇÃO para a FELICIDADE.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Busca

Walnize  Carvalho
Eu busco um sorriso
Sorriso puro
Que não seja um riso só.

Eu busco um canto
Um canto igual
Canto de paz.

Eu busco no Tempo
meu tempo
Sem tempo de voltar.

Eu busco um olhar
Olhar criança
Olhar esperança.

Eu busco o AMOR
O Igual
A Paz
E muito mais!

Eu busco um céu
Onde brilhem estrelas
De todas as cores
De todas as luzes
De todas as raças
E que reunidas
Só tenha o tom:
IGUALDADE.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Resgate

Walnize Carvalho

Acordou com vontade de trazê-la de volta.Nem que fosse por algumas horas.
Levantou-se da cama.Cabelos em desalinho.Lençóis com as marcas do seu corpo (deixaria tudo para acertar depois)
Procurou no guarda-roupa um vestido branco, próprio para o dia de primavera com ares de verão.
Enquanto amarrava o laço de fita na cintura (ele tinha um laço de fita cor de rosa) lembrou-se que em criança tinha um anel de chapinha.
Nele impressas as iniciais do seu nome.
Lembrou-se também da caixinha em que guardava o mesmo: caixa de veludo azul, onde apertando ficavam as marcas dos dedos.
Saiu à rua com a idéia bailando em sua mente: “vontade de trazê-la de volta...”
Seguiu até a feira do Mercado Municipal.
Comprou uma cesta de cajus fresquinhos.
Trouxe para casa. Na cestinha (achava linda, sentiu-se a própria chapeuzinho vermelho)...
Entrou.
Foi à pia.Lavou algumas frutas.Como uma menina levada sentou-se no umbral da porta da cozinha.
Saboreou os cajus displicentemente.
No vestido branco, as nódoas trouxeram afinal, a sua infância devolta.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Marcas


Walnize Carvalho

Desligou a tevê.
Dirigiu-se ao quarto. Precisava achar o sono, pois tinha compromisso marcado, bem cedo, para o dia seguinte.
Tirava a maquiagem olhando-se no espelho. As marcas do tempo estavam lá, em sua face.
Desfez-se dos trajes e acessórios para usar roupas de dormir.
Correu os olhos pelo corpo: as marcas do maiô, do relógio, da aliança, da vacina tomada em criança, das cirurgias feitas, da correntinha de ouro.Elas estavam lá, bem visíveis.
Sentiu-se como se tivesse sido tatuada pelo o tempo.
Cerrou os olhos. Mergulhou no seu íntimo. E viu lá no fundo do seu coração as marcas patenteadas, mas invisíveis.
Fez o sinal da cruz. Tentou dormir, pois a hora marcada para o compromisso do dia seguinte era cedo: sete da manhã.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Foto mensagem



Foto Walnize Carvalho

Mesmo com todos os percalços a flor amarela representa brasilidade em tempos de Copa do mundo.

domingo, 13 de junho de 2010

Procissão


Hoje é dia de Santo Antônio, um dos santos mais populares do país.
Com fama de casamenteiro a festa do santo dá inicício às festas populares de junho, quando cada bairro tem seu arraial, com comida típica,bebidas e música folclórica.
Hoje fomos surpreendidas aqui em casa com fogos de artifício, era uma procissão de Santo Antônio que passava aqui pela rua. Andores enfeitados, anjinhos, mas pouca gente seguindo., acho que poucos sabiam que haveria uma aqui no bairro.
A grande festa do santo acontece nos arredores da igreja do mesmo nome, mas por ser muito popular muitos outros bairros fazem o cortejo.
Pena não ter feito uma foto, de uma tradição que muitos ainda preservam e impedem que morra.

sábado, 12 de junho de 2010

Mormaço


Peço desculpas pelo atraso. A Walnize me mandou o texto desde quinta-feira e eu na correria e no meio de um gripe que resolveu não me largar acabei por postar só agora.

Mormaço
Walnize Carvalho
(pelo Dia dos Namorados)


Quando o Amor
passa
é
como um dia
de
Mormaço.
Você se distrai
Esquece
O chapéu o protetor solar.
A brisa é fresca,
A manhã é bela
Você se deixa envolver...
Percebe
ao fim do dia
o corpo
febril
tatuado
intocável.
Abre a janela
E pede
A brisa da noite
Que sopre
Pela sua pele nua
E
Suavize
o
ardor
da
Paixão.

sábado, 5 de junho de 2010

Alma em transbordamento

Florbela

Sonhar, viver em transbordamento.

Menina,

É preciso cuidar-se.

Prepare seu mundo em silêncio,

Arrume sua casa sem alarde,

Cuide do que é seu com reservas,

Sorria de felicidade, não gargalhe,

Cultive suas flores com zelo,

Espalhe suas sementes no jardim

Deixe que as raízes

Agarrem-se ao solo devagar,

Quieta no silêncio particular,

Traga para o seu sonho em noite alta,

O canto de sua alma a transbordar...


Postado no Todos os Sonhos de Abril em agosto de 2008

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A dor que sai no jornal




Indagação ou Indignação ?
(poema inspirado em fato lido em jornal)

Walnize Carvalho
Teve que na infância brincar dentro de casa.
Não correr calçadas.
Não tirar calçados.

Teve que na adolescência sufocar
amor e desejo latentes.
Não se dar em plenitude.

Teve que casar-se menina.
Usar trajes de senhora.
Amar com disciplina.
Criar filhos.
Brincar de boneca com a filha nos braços.

Teve que ser adulta.

Mulher madura,
Foi insultada,
Ultrajada,
Traída
E assassinada.
Pagou com a própria vida
a submissão
Valeu a pena
Tanto
TER?
E pouco
SER?

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Texto de outros tempos

Quando eu estava no fim da adolescência, no início da faculdade, os textos do Artur da Távola me acompanhavam por toda parte (eu era daquelas que estava sempre com um livro dentro da bolsa ou embaixo do braço).
Eu tinha uma memória de elefante, e como sempre adorei reler os textos que me agradam chegava a saber muitos de cor. O tempo passou e minha memória já não é das melhores, mas sempre fui boa em reconhecer estilos de escrita e saber se um texto foi modificado,com excertos que não são originais.
Hoje fiquei com saudade de um texto muito conhecido do autor "Ser jovem",como meus livros foram TODOS perdidos ou emprestei e não devolveram fui recorrer ao Google. Os primeiros sites traziam o texto,mas eu li identifiquei pedaços fora de ordem ou trechos que pareciam ter sido escritos por outra pessoa. Minha memória afinal não está assim tão ruim e ainda sou capaz de reconhecer que ali não estava a escrita do cronista que tanto gostava.
Enfim encontrei o texto na íntegra.Ali do jeitinho que eu lembrava,me trouxe emoções da época, de um tempo em que a escrita e a leitura andavam juntinhas e jorravam com tanta facilidade e entusiasmo,



“ SER JOVEM”
(Arthur da Távola)

“ Ser jovem é não perder o encanto e o susto de qualquer espera. É, sobretudo, não ficar fixado nos padrões da própria formação.
Ser jovem é ter abertura para o novo na mesma medida do respeito ao imutável. É acreditar um pouco na imortalidade da vida, é querer a festa, o jogo, a brincadeira, a lua, o impossível, o distante. Ser jovem é ser bêbado de infinitos que terminam logo ali. É só pensar na morte de vez em quando. É não saber de nada e poder tudo.
Ser jovem é ainda acordar, pelo menos de vez em quando, assobiando uma canção, antes mesmo de escovar os dentes. Ser jovem é não dar bola para o síndico mas reconhecer que ele está na sua. É achar graça do riso, ter pena dos tristes e ficar ao lado das crianças.
Ser jovem é estar sempre aprendendo inglês, é gostar de cor, xarope, gengibre e pastel de padaria. Ser jovem é não ter azia , é gostar de dormir e crer na mudança; é meter o dedo no bolo e lamber o glacê. É cantar fora do tom, mastigar depressa e engolir devagar a fala do avô. É gostar da barca da Cantareira, carro velho e roupa sem amargura. É bater papo com a baiana, curtir o ônibus e detestar meia marrom.
Ser jovem é beber curvas, ter estranhas, súbitas e inexplicáveis atrações. É temer o testemunho, detestar os solenes, duvidar das palavras. Ser jovem é não acreditar no que está pensando exceto se o pensamento permanecer depois. É saber sorrir e alimentar secreta simpatia pelos crentes que cantam na praça em semicírculo, Bíblia na mão, sonho no coração. É gostar de ler e tentar silêncios quase impossíveis. É acreditar no dia novo como obra de Deus. É ser metafísica sem ter metafísica. É curtir trem, alface fresquinha, cheiro de hortelã. É gostar até de talco.
Ser jovem é ter ódio de cachimbo, de bala jujuba, de manipulação, de ser usado. Ser jovem é ser capaz de compreender a tia, de entender o reclamo da empregada e apoiar seu atraso. Ser jovem é continuar gostando de deitar na grama. É gostar de beijo, de pele, de olho. Ser jovem é não perder o hábito de se encabular. É ir para ser apresentado ( já conhece fulano) morrendo de medo. Ser jovem é permanecer descobrindo. É querer ir a lua ou conhecer as Finlândias, Escócias e praias adivinhadas. É sentir cheiro de férias, cheiro de mãe chegando em casa em dia de chuva, cheiro de festa, aipim, camisa novaou toalha lá do clube.
Ser jovem é andar confiante como quem salta, se possível, de mãos dadas com o ar. É ter coragem de nascer a cada dia e embrulhar as fossas no celofane do não faz mal. É acreditar em frases, pessoas, mitos, forças, sons, é crer no que não vale a pena mas ai da vida se não fosse isso. É descobrir um belo que não conta. É recear as revelações e ir para casa com gosto do seu silêncio amargo ou agridoce. Ser jovem é ter a capacidade do perdão e andar com os olhos cheios de capim cheiroso. É ter tédios passageiros, é amar a vida, é ter uma palavra de compreensão. Ser jovem é lembrar pouco da infância por não precisar fazê-lo para suportar a vida. Ser jovem é ser capaz de anestesias salvadoras. Ser jovem é misturar tudo isso com a idade que se tenha , trinta, quarenta, cinqüenta, sessenta, setenta ou dezenove. É sempre abrir a porta com emoção. É esperar dos outros o que ainda não desistiu de querer. Ser jovem é viver em estado de fundo musical, de superprodução da Metro. É abraçar esquinas, mundos, espaços, luzes, flores, livros, discos, cachorros e a menininha com um profundo, aberto e incomensurável abraço feito de festa, cocada preta, dentes brancos e dedos tímidos, todos prontos para os desencontros da vida. Com uma profunda e permanente vontade de SER.

Se eu voltasse a ser criança

Walnize Carvalho

Ah!

Se eu voltasse a ser criança

A criança de verdade que fui...

Se este sonho

Se tornasse realidade.

Sentir a infância.

Voltar no tempo...

Viver

Novamente

Um mundo de sonhos

_sonhos dourados

Com bonecas

De pano

De louça...

Viver novamente

Um mundo à parte

Todo meu

Inteiramente meu...

Um mundo

Que não pode ser:

Trocado

Roubado

Muito menos vendido

Porque

As fadas

Os dragões

E Cinderelas

Não têm preço.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Meu coração,eu sei porque

Tenho no coração uma caixinha de música

Nos dias felizes eu giro

Eu danço

E me lanço no ar

Hoje eu estou assim

Meio bailarina

Muito menina

Ouço m eu coração cantar.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Conselhos do espelho



Walnize Carvalho

Aquiete-se coração aflito
Adormeça doce saudade
Acalme-se velha nostalgia
Contenha-se grito no peito
Sossegue lágrima teimosa
Deixe de mirar-me ,saia deste lugar
E apaziguada
Mergulhe
profundamente
no espelho de sua alma.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A dor de mudar


Ainda que com dor

Walnize Carvalho

Ainda que com dor
é necessário
jogar fora
papéis entulhados
nas gavetas.

Ainda que com dor
esquecer
amizades sucateadas
amores
não correspondidos.

Ainda que com dor
tirar
do fundo dos armários
retalhos
desbotados.

Ainda que com dor
é preciso
arrancar, sem anestesia
o medo
e
o medo
de perder o medo.

Ainda que com dor
retirar
as teias
dos cantos dos
cômodos,
o mofo
das prateleiras
do
comodismo.

Ainda que com dor
faxinar da
Alma
os maus presságios.

Ainda que com dor
extrair a fórceps
qualquer
sentimento
de
CULPA
E tentar um novo CAMINHO.

*(Uma eterna Aprendiz da vida)

sábado, 8 de maio de 2010

Porque só somos mães por causa deles...


Parceiros

Walnize Carvalho

Os conheço de longa data.
Parceiros, amigos, quase gêmeos... Irmãos!
São que se pode chamar: banana iconha; irmãos siameses; a porca e o parafuso; o Gordo e o Magro; Cosme e Damião; Jararaca e Ratinho; Chitãozinho e Xororó; dada à afinidade e cumplicidade que os une.
Na infância, Batman e Robin foram seus personagens preferidos, o que correspondia vestirem, literalmente, a fantasia...
Cresceram freqüentando os mesmos bancos escolares, as mesmas festinhas, repartindo desabafos e confidências com os mesmos amigos.
Como em qualquer parceria (e com eles não pode ser diferente) ficam definidas as sutis diferenças, pois são elas que dão o toque harmonioso da convivência.
Com o passar dos anos, cada um seguiu seu caminho, na escolha das profissões, das paixões e decisões.
Mesmo assim – ainda que ocupem espaços físicos diferentes – percebe-se uma linha tênue e transparente que faz com que se aproximem sempre.
Há uma torcida mútua pelo sucesso de cada um. (Ah! não posso em esquecer!...) torcem pelo mesmo time de futebol, o que os leva aos estádios em prazerosas tardes de domingo.
Em se tratando de dor ou alegria seguram-nas de mãos dadas e firmes dividindo o peso em partes iguais.
Existe compreensão recíproca no modo de agir, pensar e viver já que com o amadurecimento os traços de suas personalidades ficam bem evidenciados: um carrega o piano, o outro toca o piano; um é samba, o outro é jazz; um dirige o carro, o outro é sempre carona; um está sempre pronto a ajudar, o outro sempre pronto a ser ajudado...
E foi por conta disso, que dias desses – descontraídos e felizes – se auto-denominaram: o prestativo e o imprestável acompanhado de sonoras gargalhadas.
Abraçaram-se como “cocota e ranheta” e pude – mais uma vez – ver selada a fraternidade entre eles.
(aos meus filhos dos quais recebi o título de Mãe)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Trova


Walnize Carvalho


Meus olhos são como boca
Minha boca um par de olhos
São pontes da vida louca
Deste meu mar de abrolhos

quarta-feira, 28 de abril de 2010

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Felicidade

Acordou

Abriu a janela

E saltou

Para o azul do dia

Vitoriosa


Walnize Carvalho

Sou vitoriosa

Quando choro

Quando coro

Quando rio

Quando crio

Quando creio

Sou vitoriosa

Quando mudo

Quando estudo

Quando aprendo

Ou me rendo

Sou vitoriosa

Quando troco de calçado

Ou de calçada

Troco de Estado

De estado civil

E nem ligo

Quando dizem

“ — Onde já se viu?”

Sou vitoriosa

Quando digo: NÃO!

Quando digo: SIM!

Sou vitoriosa

Quando

amo a MIM...

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Na retina dos meus olhos


Walnize Carvalho


Na retina dos meus olhos
habitam
límpido céu
plácido lago
mar azul.

Na retina dos meus olhos
desfilam
crianças saltitantes
pessoas hesitantes
sem norte sem sul.

Na retina dos meus olhos
pairam
rios poluídos
prédios demolidos
lágrimas de dor e sal.

Na retina dos meus olhos
fixam
COTIDIANAMENTE
Alegria
Sofrimento
Paz
Encantamento
O Bem e o Mal.


sexta-feira, 9 de abril de 2010

"Mas eis que chega a roda viva..."


Roda Viva

Walnize Carvalho

Na banca de revistas,
Grupo de homens
Filando
Leitura de jornais.

No umbral da janela,
Roda de pássaros
Disputando
Farelos de pão.

Na porta da igreja,
Cacho de velhinhas
Rezando
Oração matinal

No meio da praça
Conjunto de transeuntes
Ouvindo
Pregação do vendedor.

Na frente da escola
Penca de estudantes
Concorrendo
Vagas de ensino.

Na entrada da repartição,
Aglomerado de rapazes
Pleiteando
Emprego definitivo.

No azul do céu,
Enorme círculo dourado
Iluminando
A roda viva da cidade.

domingo, 4 de abril de 2010

Novamente



(*) Walnize Carvalho

O Valor das Palavras
O enorme valor do prefixo RE.
Em tempo de RESSURREIÇÃO, vale REFLETIR. Que tal?

REcitar um poema?
REdescobrir um caminho?
REatar uma amizade?
REver um amigo?

REalçar um sorriso?
REacender uma paixão?
REcontar uma história?
REconquistar um afeto?

REpensar a solidão?
REler um bom livro?
REciclar uma idéia?
RElembrar a infância?

REfazer um trajeto?
REtribuir um gesto?
REaprender com o idoso?
REviver uma emoção?

REencontrar a si mesmo...

“REinventar a VIDA?”

sábado, 3 de abril de 2010

História da princesa moura e do dragão azul


História da princesa moura e do dragão azul, (in Textos e cartas de Pedro Paixão a Helena Águas 1985-1986)

Esta é a história de uma princesa moura das terras quentes do sul
e de um dragão azul - que era afinal um príncipe
das terras altas do norte

Andava a princesa desaustinada, numa noite de temporal
e absolut vodka, num reino que ficava equidistante.
(Ela não sabia do que andava à procura.)
Entrou na sua carruagem puxada por noventa cavalos e tinha apenas percorrido alguns metros quando se lhe atravessou no caminho um jovem dragão azul com figura de príncipe, molhado como um pinto por causa da chuva que caía muito forte. Ela parou, baixou o vidro da carruagem, e ele quis saber que música vinha ela a ouvir e para onde ia ela àquela hora da madrugada.

Logo aí a moura percebeu que era um dragão azul das terras altas do norte que lhe falava a sorrir, e foi sem ela se dar conta que ele a raptou, convidando-a para sua casa...
Ainda se perderam, porque o belo dragão ainda não sabia de cor o caminho de casa.
Mas a princesa deixou-se levar até ao castelo, feliz por acreditar que o dragão não lhe iria fazer mal - quem sabe seria um príncipe? (Parecia mesmo um príncipe que ela já tinha visto num filme!...)

Encontraram-se numa noite de temporal
entre o norte e o sul
e foi ela que o guiou
sem saber que estava a ser raptada

Quando chegaram ao castelo o príncipe abriu a porta devagar e entraram os dois pé ante pé, pois todos se encontravam já a dormir.
Os aposentos continuavam mergulhados na penumbra da madrugada e a princesa moura ficou a saber que no castelo não havia luz nem água, e por isso foi preciso acender uma vela.
Conversaram de música e cinema durante um bocadinho, mas o dragão dentro do príncipe começou a beijar a moura, que estava cheia de medo.
(Não é todos os dias que uma moura é raptada por um dragão azul das terras altas do norte!...)
E cheia de medo ela se foi entregando devagarinho até deixar de ser princesa, para se transformar numa sereia nos braços do belo príncipe...
Abraçaram-se muito, beijaram-se muito, mas ela temia que o dragão fosse apenas mais um sapo, e lá se ia protegendo como podia, dando muito mas não tudo.
Queria sossegá-lo, ao príncipe, mas o dragão não queria sossegar...

E foi preciso muito carinho e ternura e paciência para adormecer o príncipe e o dragão dentro dele...

Depois a sereia procurou peça a peça as suas roupas espalhadas pelo chão e foi-se vestindo devagar e sem barulho, para não o acordar.
Ela apagou a vela, tapou o príncipe adormecido e beijou-o docemente na face. Ele sorriu, sem abrir os olhos.
E a moura disse "Até logo".
Encantada.

L.A.
Coimbra, 1998

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Deixa-me amar-te




Quadro: Closer hearts, de Hessam Abrishami

Deixa-me amar-te, de Fernanda Guimarães

Deixa-me amar-te em meus silêncios
Na calmaria do teu coração que me acolhe
E de onde se desprendem meus sonhos
Em vôos etéreos de plena liberdade
Deixa-me amar-te em minha solidão
Ainda que meus labirintos te confundam
E que teus fios generosos de compreensão
Emaranhem-se no tapete dos meus enigmas
Deixa-me amar-te sem qualqu...er explicação
Na ternura das tuas mãos que me sorriem
Escrevendo desejos em versos despidos
Na minha alva tez que te cobre e descobre
Deixa-me amar-te em meus segredos
Para que desvendes o que também desconheço
A alma dos meus abismos onde anoiteço
E meus olhos adormecem embalados pelo mistério
Deixa-me amar-te em tuas demoras, longas horas
Em que meu corpo se veste de céu à tua espera
E minhas mãos em frenesim acendem estrelas
Para alumiar-te, ainda que ausente estejas…