sexta-feira, 6 de maio de 2011

A menina do cacho dourado



Walnize Carvalho

A menina é loura. Tem um anel de cabelo no alto da cabeça: um cacho dourado.
Mora em uma casa grande, de janelas altas. Próxima à rua. Rua movimentada.
Suas tardes ( já que nas manhãs vai à escola) são passadas na janela, olhando os que passam na calçada.
Seu pai é alfaiate.
O ateliê fica no primeiro cômodo da casa, bem na face da rua.
Encostada à janela, encontra-se uma mesa alta. De alfaiataria. É nela, que a menina sobe para espiar a rua. E só o faz, quando o pai não está cortando tecidos, para a confecção de ternos de seus fregueses.
Sobre a mesa e pela janela alta ela vê o mundo: uma enorme vitrine. Nela perfilam pessoas, carros, animais...
E sonha...Sonha correr livre pela calçada, atravessar ruas, ir à esquina comprar balas.Mas, qual? Só acompanhada dos pais ou da professora, que mora na mesma rua e costuma levá-la a escola.
A menina na janela faz projetos: usar óculos, um deles. Pensou até em pedir à mãe para ajudá-la nas tarefas domésticas descascando cebolas. Quem sabe, com olhos vermelhos e lacrimejados conseguiria tal feito? Recebeu um “Não”.
No outro dia, passou pela calçada uma moça de braço fraturado e engessado. Fechou os
olhos e sonhou...Sonhou ter subido na goiabeira da casa da avó, que mora no interior.Desequilibrou e...tbum! ganhou o chão e o “braço postiço”.Acordou e parece ter ouvido da mãe:”meninas comportadas não sobem em árvores!”...
A menina segue em seu devaneio. Ela e a janela.
Agora observa as folhas, que caem das árvores. Embarca no vôo com elas e percorre calçadas, cidades, mundos!...
As pessoas passam. Acham graça do seu sorriso,seus trejeitos,seu canto.E exclamam:
-Olha, que garota bonitinha! Que bons modos! Ela tem um cacho dourado na cabeça!
A menina sorri. Desce da janela.
O caderno de matemática a espera no seu quarto.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Princesa de apartamento


Walnize Carvalho

“Era uma vez, em terras distantes, um pequeno reino cheio de paz, prosperidade e rico em lendas e tradições...” E segue a história extraída de um grosso livro de capa marrom e letras douradas.
A menininha que a tudo ouve e a tudo vê dá um salto do sofá e vai em busca do traje que a avó irá vesti-la.
Desta feita, enquanto assiste no DVD “Cinderela” – um dos mais belos contos de fada – a vestimenta lhe é cuidadosamente colocada: vestido azul de saias rodadas, luvas de cetim e (como não pode faltar) a coroa dourada na cabeça.
Entre rodopios e atenções às cenas de tevê, a bela princesa ri, gesticula e cantarola.
Seus olhinhos brilham enquanto aos poucos os de casa vão assumindo os papéis que ela determina: o rei, a rainha, a fada madrinha, o príncipe...
A um canto o cavalinho de pau parece que ensaia um galope enquanto a cadeira da sala de jantar está prestes a se transformar em uma suntuosa carruagem.
De repente, o apartamento do sexto andar se torna o mais luxuoso castelo, onde imaginários lustres e escadarias cobertas de tapetes vermelhos compõem o ambiente de pura magia.
Nem mesmo o som de uma freada brusca de carro na rua consegue suplantar a música encantada que ecoa no “palácio”: “Cinderela, Cinderela o seu nome é uma canção/ Cinderela deixa o coração voar/ E assim poderá realizar/ O seu sonho encantador...”
A princesa do apartamento (que hoje completa três anos) reina em seu mundo à parte.
Por alguns minutos senta-se e emudece.
Fixa o olhar nas cenas que se sucedem: meia-noite. A princesa desce correndo as escadarias. A perda do sapatinho de cristal. A abóbora. As vestes rotas. O encanto desfeito.
A campainha toca.
A menininha cheia de entusiasmo grita: - É o príncipe! E abraçando o pai (que traz nas mãos uma caixinha de presente) lança a pergunta: - Você trouxe o sapatinho de cristal?
Risos. Afagos.
Na tela da tevê a cena final: a carruagem segue levando o príncipe e princesa...
... “E foram felizes para sempre”.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Novamente



Walnize Carvalho

O Valor das Palavras
O enorme valor do prefixo RE.
Em tempo de RESSURREIÇÃO, vale REFLETIR. Que tal?

REcitar um poema?
REdescobrir um caminho?
REatar uma amizade?
REver um amigo?

REalçar um sorriso?
REacender uma paixão?
REcontar uma história?
REconquistar um afeto?

REpensar a solidão?
REler um bom livro?
REciclar uma idéia?
RElembrar a infância?

REfazer um trajeto?
REtribuir um gesto?
REaprender com o idoso?
REviver uma emoção?

REencontrar a si mesmo...

“REinventar a VIDA?”

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Busca


Walnize


Eu busco um sorriso

Sorriso puro

Que não seja um riso só.

Eu busco um canto

Um canto igual Canto de paz.

Eu busco no Tempo

meu tempo Sem tempo de voltar.

Eu busco um olhar

Olhar criança

Olhar esperança.

Eu busco o AMOR

O Igual

A Paz

E muito mais!

Eu busco um céu

Onde brilhem estrelas

De todas as cores De todas as luzes

De todas as raças

E que reunidas

Só tenha o tom:

IGUALDADE.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Desarmamento


Walnize Carvalho

No bangue-bangue da Vida/ é preciso .../ desarmar corações empedernidos/ combater conceitos preconcebidos/ distribuir balas de puro mel/ limpar da boca amargo fel/ desconsiderar algo sem relevância/ desatar nós de ignorância/ cultuar a fraternidade/ defender a liberdade/ desfraldar sorrisos ao vento/ viver o fugaz momento/ decorar um poema bonito/ desprender de enfadonho rito/ desmistificar que é “dono da verdade”/ soltar “a criança” em qualquer idade/ reverenciar o sonhador/ acreditar no Amor/ desenraizar a amargura/ exercitar a ternura/ conservar a calma/ desenferrujar a alma ...
E
armar-se de boa dose de ânimo/ para enfrentar a batalha do cotidiano.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

"Primeiro de abril- seu pai caiu, sua mãe não viu!"


Walnize Carvalho

Já vai de longa data (e bota tempo nisso) que o Primeiro de Abril é considerado o dia da Mentira.
Sempre fui sabedora de que se trata de um dia em que se prega uma peça em alguém a título de gracejo.
Em minha memória cinqüentona há registros e registros de brincadeiras que eu fazia e que faziam comigo nesta data,( "hoje não tem aula"; "Seu zé da venda está distribuindo balas":"mamãe tá te chamando!"... ) sempre arrematadas pela seqüência de palavras: “Primeiro de Abril – seu pai caiu, sua mãe não viu”.
Os tempos mudaram e a data transformou em um acabar sem fim de relatos inofensivos, outros maldosos, que vão desde convites para casamento de pessoas que nem se conhecem, convocações para falsas reuniões, como as pregadas na imprensa nacional e mundial a título de confundir a opinião pública.
Prefiro deter-me em “pegadinhas” com sabor de descontração, mas sabendo que manifestações folclóricas serão sempre eternizadas no mundo inteiro.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Gata Borralheira às avessas


Walnize Carvalho
Abriu os olhos para o dia e diante deles passou um letreiro luminoso: A VIDA É UM TEATRO.
Enquanto caminhava para a mesa do café da manhã, a mulher se dava a filosofar ... A vida é um teatro ... Mais do que sinônimo de representação cênica, mundo ilusório, vida fictícia, o que não é o teatro senão a própria vida encenada no palco?
Nele temos vários papéis a desempenhar no dia-a-dia. E, se possível, com prazer e autenticidade – meditava.
Naquela manhã de outono, com ares de verão, sentiu que começara bem o seu dia.
A mulher se deu a tarefa de remexer guardados, faxinar cantos, cuidar de forma mais ordenada dos afazeres domésticos.
Seguia, distraída, com música suave a lhe fazer companhia, desempenhando o referido papel. Papel este que não exigia da “atriz” nenhum ensaio e nem texto bem estudado. Bastava apenas disponibilidade, energia e disciplina.
E com a atividade quase por cumprir lembrou-se que estava atrasada para um compromisso.
Trocou apressadamente de roupa e saiu à rua.
Corria pelo caminho, levada pela brisa da manhã deslizando lépida e feliz por entre carros, pessoas, árvores e calçadas.
Como em um conto de fadas, em sua mente havia um relógio imaginário que a qualquer momento iria “badalar as doze horas, fazê-la perder o sapatinho de cristal nas escadarias e transformá-la em outro figurante” ...
Assim, a mulher, cheia de encantamento e alegria chegou a tempo de participar de mais um encontro literário e desempenhar no “teatro da vida”, mais um personagem: o de POETA.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Jogos da vida



Walnize Carvalho

“Jogando e aprendendo a jogar/nem sempre ganhando/nem sempre perdendo/mas aprendendo a jogar!...”

Nos jogos da vida
baralhar
escolher
arriscar
recuar
ir em frente
dar um passo atrás
lutar
resignar
aceitar
chorar
rir
renunciar
aprisionar
libertar.
Jogar com determinação.
Manejar
com destreza as adversidades.
Sentir firmeza nas decisões tomadas.
Evitar a qualquer preço
fazer ping pong dos sentimentos alheios.
Não promover “quebra de braço” entre egos inflados.
Na hora do xeque-mate
esquecer vencedor e vencido.
Nas batalhas do dia a dia
munir-se de muito jogo de cintura.
Na vitória
ou nas derrota
se certificar de ter jogado limpo.
Estar consciente
que o exercício de viver o livre arbítrio é peça chave que nos move.
E assim...
conseguimos
expressar
aprender
ensinar
e descobrir que
a coragem
é a carta que trazemos na manga do paletó.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Ressaca


Walnize Carvalho

Hic! Um soluço interminável, um peso enorme na cabeça (como se pousasse sobre ela um elefante), um gosto amargo na boca – gosto de cabo de guarda-chuva, dizem alguns -, náusea, mal estar, “estômago embrulhado” e o olhar distante fixado em lugar algum.
Sabem de quem estou falando? Da famosa ressaca que, principalmente, nos últimos dias (dias que sucedem ao carnaval) a muitos abate.
Estranhamente reconheço que tenho quase todos os sintomas citados, embora não ingira bebida alcoólica nem tão pouco tenha participado da festa.
Sou tomada de uma leve prostração, de desalento, de incômodo, e com o olhar distante fixado em lugar algum constato que também estou de ressaca, mas de uma ressaca atípica. Sinto no ar o esgotamento de valores duradouros e autênticos, uma falsa euforia, uma vontade de que a fantasia não desbote e a que máscara fixe no rosto e não descole tão cedo.
Há o cansaço do “ser eu mesmo” e o desejo de que o personagem construído assuma o papel principal.
Neste estado letárgico não há receitas caseiras do tipo: muita água de coco, sal de frutas, banho de mar e até os conselhos de “tomar mais uma”, um engov antes outro depois que irão modificar o quadro. E nem tão pouco a ressaca não alcoólica (que é o meu sintoma) vá se desfazer com vãs filosofias.
No mais, é esperar que ela se dilua por si mesma. E que ao fim de alguns dias se possa abrir o armário, pendurar a fantasia e buscar vestimentas adornadas de bom senso, otimismo, sobriedade e esperança.
Assim vestida, finalmente, dar início à caminhada do ano novo que nos espera.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Outros Carnavais


Walnize Carvalho .

Nesta crônica de hoje vou embarcar no saudosismo...Saudosismo sim! E por que não?
Temos tendência a rotular de saudosista a pessoa velha, ultrapassada, insatisfeita ( quase sempre com o presente) e que insiste em querer viver no passado.
E há quem diga até que “quem vive do passado é museu”...
Creio que (retomando a idéia inicial) saudoso é quem denota saudade e – convenhamos – que privilégio ser tomado por este sentimento (saudade) que, além de ser um belo estado de espírito, é palavra que só existe na língua portuguesa!...
Mas, vamos lá!
Hoje é tempo de carnaval. Com ou sem fantasia ; animado ou indiferente não há como deixar de saber notícias dele...
Em tempo de boas lembranças me vêm à mente outros carnavais: os que vivi e os que ouvi contar... Tempo de corso nas ruas, fantasias, blocos, cordões, clubes sociais apinhados de pessoas descontraídas e felizes.(será que alguém se lembra – como eu - da expressão “tríduo momesco”?)
Em idos de 58 ( pesquisei no ‘ Campos depois do Centenário “ vol. 2 – Waldir Carvalho) consta que : “ Na segunda feira gorda desfilaram os blocos “ Felisminda minha Nega “ , “ O Prazer das Morenas “ como os ranchos “As Magnólias “ e “ Chuveiro de Prata“ .A animação dos bailes ficava por conta dos Plutões , Saldanha e Automóvel Clube Na boca de todos, em qualquer canto da cidade (nos clubes ou nas ruas) as marchas-rancho se tornavam hino.
A cada ano ,com tempo de antecedência aprendíamos as músicas que seriam tocadas e cantadas a exaustão.Exaustão? E quem demonstrava cansaço, ainda que ele se fizesse presente?
Quantas gerações conhecem e cantam até os nossos dias: “Bandeira branca”, “Jardineira”, “Cabeleira do Zezé”, “Colombina”, “Mamãe eu quero” e tantos outros sucessos!
É prova inconteste que o que é bom perpetua e feliz de quem não tem culpa de gostar do que é bom!
Havia no ar uma expectativa com a chegada do carnaval desde a compra de fantasias a ingressos para os bailes nos clubes, como também gerava ansiedade poder ir às ruas ver ou participar dos desfiles populares.
Tudo girava em torno da alegria garantida nos “três dias de folia”.
E quando estes chegavam... não havia quem não fizesse valer os versos da canção: “Deixei a tristeza lá fora/ mandei a saudade esperar/ hoje eu não quero sofrer/ quem quiser que sofra em meu lugar”.
Mas... sem nostalgia: são outros carnavais!

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Cumplicidade



Walnize Carvalho

É um período de diários encontros.É tempo de férias.
E assim... ao cair da tarde, o prazeroso ritual se repete: Três grandes amigas passam juntas, horas agradáveis.Duas delas, se dirigem à casa da terceira, que ao pressentir a chegada das primeiras, logo avisa com voz de alegria e ansiedade: - Arrumem as cadeiras da varanda...E - enfatiza - ... no lado da fresca, que já estou indo!
Minutos depois a dona da casa aparece trazendo nos braços e mãos (quanta habilidade!) variadas guloseimas, (potes de biscoitinhos sortidos, bolo de aipim, broas de milho e até doce de jenipapo!) para o lanche da tarde.Ajeita-os sobre a mesa e retorna com líquidos variados (leite, suco de caju e café coado na hora). Tudo por ela organizado é hora da saudação às “visitas” que é feita de abraços e beijos fraternos.Quem assiste de fora (caso passe alguém pela rua) pensa que se trata de reencontro de pessoas queridas, que de há muito não se vêem.Ledo engano!A afetividade é repetida diuturnamente.
Regado a tudo isso, a conversa que rola solta e descontraída. Trocam experiências, fazem confidências. Falam de assuntos domésticos, do tempo, de novela, de moda, dos modos, das novidades, dos acontecimentos, de culinária, da vida vivida, de fatos que a memória insiste em lembrar, dos filhos, dos netos e...dos netos!
E como entre elas, há o pacto legitimado pelas alianças do sangue, toda a “troca de ideias” é cercada de autenticidade e sinceridade. Há um forte comprometimento com as marcas da origem (a criação que tiveram, os valores adquiridos...) fazendo com que o eixo central do bate papo seja a família.
Dia desses uma delas se lembrou da frase primorosa da escritora Rachel de Queiroz: ”Famílias, a Natureza as faz, mas a gente as arruma ou organiza”, o que fez rolar uma lágrima furtiva dos olhos da outra, denotando melancolia.Silêncio.A terceira, quebrando o clima saiu-se com essa: -Tem gente aí que prometeu parar de pintar os cabelos aos cinquenta...e já está a caminho dos sessenta e até agora nada!...
Gargalhada geral!
E tem sido assim: Uma fala, outra escuta e mais outra retruca... E porque não há compromisso com o correr das horas, afinal - férias são férias - debruçam-se em lembranças felizes, que vão desde a infância ,em que dormiam cada uma em sua caminha . Assim, recorda uma delas, que a mãe as abençoava e saía do quarto, tratavam de juntá-las, para que a mais velha das três contasse historinhas...
Em seguida, aportam na juventude e em meio a risos nervosos falam dos bailes no Clube, bailes estes acompanhados dos pais .Uma delas se lembra de que quando o pai se postava de pé era a senha: hora de ir embora.E ela, pensando ganhar mais alguns minutos se escondia no vestiário! Que ilusão!...
Anoitece. Todas se lembram que é hora de retornarem aos seus hábitos individuais. Despedem-se. Duas seguem para suas respectivas casas. A que fica chega ao portão e grita:- Amanhã à tarde,tem doce de carambola com queijo da roça!...
(dedico esta crônica às queridas irmãs –Zedir e Zalnir - que neste fevereiro(21) e (25) respectivamente, aniversariam.)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Descoberta




Walnize Carvalho

Cobria os olhos
Com óculos escuros
- precisava mascarar.

Escondia os braços
Com traje abotoado
- necessitava ocultar.

Tingia os cabelos
Com tons dourados
- desejava disfarçar.

Vestia todo o corpo
Com túnica longa.
- queria camuflar.

Mas...
A mão despida,
Com caneta ágil nos dedos,
obedeceu
ordens interiores.

E o coração pulsando
A mente impulsionando
Não pude mais dissimular.

A Poesia
Desnudou
A minha alma.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Bizarro


Walnize Carvalho

Quando ela se anunciava (e final de semana geralmente era quando a “danada” a pegava de jeito) sai de baixo ... Do Carmo ficava impossível e com um estranho desejo.
Era a vontade de sentir Tristeza. E tinha que ter tristeza para justificar a tristeza.
Arranjava um grande motivo para deixá-la chegar ... e ficar.
E assim, lenço na cabeça, avental, pano de chão, balde e vassoura se dava a faxinar a casa. Para ela uma sensação ambígua de humilhação e glória. Suor pela face, joelhos no chão, limpava canto por canto. Verdadeiro auto flagelo.
Olhava as unhas pintadas na sexta-feira já totalmente destruídas. A escova progressiva já dava sinais de ter que ser refeita (gastara um bom dinheiro).
Respiração ofegante, coração exultante.
Como estava só em casa aproveitava para ouvir os velhos sucessos musicais do tipo “Ninguém me ama; ninguém me quer”. Cantarolava ... E bem lá no fundo de seu ouvido o refrão da “Escrava Isaura” fazia ressonância: “lerê, lerê, lerêlerêlerêlerêêê”...
Afinal, movida de tamanha felicidade de ter conseguido o seu intento – sentir Tristeza - jogava-se na poltrona (após banho tomado), fechava as cortinas da sala e começava a chorar, gargalhar, soluçar.
Vencida pelo cansaço, dormia abraçada à “visita” como um anjo sem culpa.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Foto mensagem



Na manhã ensolarada o matinho verde se esparrama sobre a areia como a banhar-se dos raios solares...

sábado, 29 de janeiro de 2011

Mergulhos no mar da memória


Walnize Carvalho

Verão de infância distante.
A cena aparece límpida perante meus olhos : eu, primos e irmãs ( após café da manhã) trocávamos rapidamente os trajes de dormir pelos de banho de mar.E nem consultávamos o tempo! O importante era não perder tempo...embora ficássemos de guarda até que um adulto chegasse (ou melhor apontasse na esquina) para que –enfileirados- tal atletas em competição, corrêssemos para nados e mergulhos.E não havia disputa e nem espera de medalhas...Éramos,tão somente ,crianças felizes e despreocupadas curtindo férias na praia do Farol de São Tomé.
Com chuva ou com sol (de preferência por dias ensolarados, para que os adultos –os tomadores de conta- ficassem menos extenuados ) lá estávamos nós, no nosso “compromisso” diário.
E ficava difícil - mães e tias - conterem a fúria (não do mar bravio) mas de nosso impulsivo destemor naquelas horas de genuína felicidade.
Sob as barracas, (em cadeiras ou esteirinhas) os adultos admiravam o balé quase que sincronizado da criançada. Os meninos davam braçadas, “pegavam jacaré” com os braços esticados (ainda não existiam pranchas), deslizavam em meio as ondas indo até à beira mar, o que fazia com que muitas vezes “atropelassem” os que por ali estavam . Já as meninas se esmeravam em mergulhos e mais mergulhos...o que fez com que eu recebesse o título de “tainha”(tainha - um peixinho- não confundir com rainha ) do saudoso tio Zé...
A saída das águas só se dava após insistentes acenos e gritos dos mais velhos ou quando eles entravam no mar e exigiam nossa retirada.
Em tempos atuais tenho pelo mar (principalmente, o da praia campista e lugar escolhido de férias das netas) admiração e respeito. Gosto de postar-me à sua frente e meditar. É como estivesse em um santuário a ouvir cantos gregorianos que são substituídos pela melodia do bater de suas ondas.
Perante gigantesca beleza extraio lições de sabedoria para um viver harmonioso: ora mergulho fundo em busca de soluções para os desafios; ora mergulho raso quando assumo minhas limitações.
Embarco, para melhor definição, nos versos da canção: “A vida vem em ondas, como o mar /num indo e vindo infinitos” .

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Farol de muitos faróis


Walnize Carvalho
Gosto de estar por aqui neste exílio voluntário, pés no chão, despojada, encontro diário comigo mesma. Caminhar na hora do sol nascente por entre as alas de casuarinas sentindo a brisa matinal.
Ir à beira-mar, pisar na areia úmida, catar conchinhas (ainda que escassas) e sentir a maresia lamber-me a face.
Ver, ao longe, barcos no porto. Alguns de pintura nova, nomes gravados no dorso e outros já cansados, emborcados e envelhecidos pelo tempo.
Seguir em frente e observar algumas casas com telhados à mostra, enormes varandas, flores no muro espiando a rua. Em seus quintais, galinhas e pintos ciscando a terra.
Sentar-me, tomar água de coco, ver passar antigos e novos moradores. Padeiro de bicicleta, caminhão vendendo redes, kombi com legumes e frutas, o menino do picolé: - Cremoso!! É da Boa Vista!...
Ao meio-dia ir a algum dos quioques enfileirados na calçada paralela ao mar e saborear peixes e camarões fritos na hora acompanhados do largo sorriso dos que estão ali prontos a servir os visitantes.
Fazer a sesta, ler um bom livro na rede ao som de música suave.
À tardinha passear pelo Calçadão, assistir ao vôlei enquanto pessoas sentadas nos bancos ficam por ali, conversando.
Olhar em direção ao mar e ver meninos soltando pipas, moços com pranchas e senhores com redes de pescar lançando-as nas ondas bravias.
Quando a noite chega, admirar o velho Farol – timoneiro dos navegantes – e símbolo deste aprazível balneário derramar seus raios como a abençoar moradores e veranistas.
Fitar o céu salpicado de estrelas.
E em contrição com a Natureza, recolher-me, dormir e sonhar.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Ilhada no shopping



Walnize Carvalho

Estava , a mulher, naquela tarde de sábado lendo jornais.
Deu uma espreguiçada e levantou-se.
Olhou pela janela do apartamento e viu a romaria que passava rumo ao shopping .
Decidiu juntar-se aos mortais (a tarde ensolarada era um convite) e para lá seguiu também.
Entre espiar vitrines, ver pessoas, tomar sorvete e refrescar-se pelos corredores ( ar refrigerado em alta voltagem) nem viu o tempo passar.
De repente,se deu conta de que chovia lá fora.Chuva de fins de tarde em dias de verão.
Dirigiu-se até a saída .Ela e a multidão.
A cena presenciada por todos era desalentadora : ruas às escuras,alagadas.Correnteza.Rios de lama...e a constatação: estava ilhada.Ilhada em um shopping..
Alguns “sobreviventes” acionavam seus celulares enquanto outros, como ela, resolveram evadir o local.
Saiu.Atravessou as ruas rezando para escapar dos ralos entupidos por dejetos da “civilização”.
Chegou sã e salva ao apartamento.
Aliviada ,de corpo e alma lavados, suspirou: _Porto seguro! Enquanto subia ofegante os seis andares de escada.Faltava luz no prédio...

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Mormaço


Mormaço
Walnize Carvalho

Quando o Amor passa é como um dia de Mormaço.Você se distrai.Esquece o chapéu,o protetor solar.
A brisa é fresca... a manhã é bela ...você se deixa envolver.Só percebe ao fim do dia
o corpo febril, tatuado, intocável...
Abre a janela e pede a brisa da noite que sopre por sua pele nua e suavize
o ardor da Paixão.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Velha Companheira


Walnize Carvalho

Com o término do ano preparo-me para a sua despedida. E, confesso, já estou com saudades dela.
Olho-a com ares de ternura e uma certa melancolia me invade.
Vejo o seu jeito cansado, desgastado, amarrotado pelo tempo – afinal, um ano se passou – e ela ali, firme, guerreira, acima de tudo, velha companheira.
Sem ser volúvel (mas é necessário que assim o faça) irei substituí-la por outra. É o ciclo da vida.
Com ela, nestes doze meses, dividi tristezas e alegrias.
Arquitetei planos.
Realizei sonhos.
Deixei em sua face sinais de lágrimas e até marcas de batom.
Impregnei-a de frases lidas, ouvidas e até criadas por mim.
Empenhei com ela (em vão) a sentença de que “não se deixe para amanhã o que pode fazer hoje”. Mas, muitas vezes, dada às circunstâncias coisas ficaram para... depois de amanhã.
Ela, compreensiva e silenciosa, sempre entendia os meus anseios.
Minhas frustrações? Passei-lhe todas.
Derramei sobre seus ombros várias emoções vividas e ela as recebia com entusiasmo.
A simbiose afetiva transcorria de forma envolvente e profunda.
Verdadeira entrega.
Como autêntica arquivista documentou tudo o que eu lhe passava sem contestação.
Agora, aqui fico a admirá-la e esquecida de mim leio em seu semblante minha história desenhada.
Revejo no tempo o meu aprendizado e constato que foi enriquecedor estar em sua companhia.
Ela está de partida. Cansada, mas com sentimento do dever cumprido, pois mais do que companheira foi minha cúmplice.
Agüentou, serenamente, confissões e desabafos.
Com o término do ano preparo-me para despedir-me da minha AGENDA .
Uma amiga? Uma companheira? Tudo isso. Mas, acima de tudo, a reprodução de mim mesma.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

E chegou o Natal...



Aproveito o desenho da neta Valentina - as crianças e sua inocência nos renovam - para desejar a amiga Ana e aos que passam os olhos pelas minhas postagens uma Noite feliz!

Para sempre Papai Noel


Walnize Carvalho
(da lembrança do meu pai)

A menina entreabre os olhos.
Vê que vem do cômodo ao lado de seu quarto, uma luminosidade.É manhãzinha. Olha para o lado. Suas irmãs estão dormindo nas caminhas enfileiradas.
Levante-se, sorrateiramente, e vai ate aonde a luz chama. La está ele –seu pai- os apetrechos de barbear :bacia, pincel, espuma, gilete.
Prepara a espuma e desenha no rosto a barba – barba de Papai Noel.
A menina chega. Debruça-se sobre o parapeito da pia e fica a admirar aquele que tantos anos repete o ritual e transforma no seu herói preferido.
Espuma branca ... lembrança pura.
A mulher entreabre os olhos.
Sai á rua na manhãzinha. Passa por uma barbearia.Espia um senhor sentado,toalha no pescoço,cabeça recostada.
O barbeiro prepara o rosto dele. Mesmos apetrechos de barbear. Mesmas lembranças.
Modela naquele rosto cansado a barba de espuma branca.
O Papai Noel volta a bailar na mente daquela mulher.
O momento é mágico e por segundos uma nuvem de paz envolve o ambiente.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Para Ana Paula


"Eu encheria de estrelas
uma cesta bem grande,
se pudesse colhê-las...

Escolheria com carinho
e o máximo cuidado
(será que elas se apagam
ou se quebram?!...)
as mais brilhantes,
as que ficam mais perto
do trono azul de Deus...

Depois, iria à sua casa,
toda cheia de brilhos,
como a primeira distribuidora de estrelas,
de estrelas vivas e genuínas!

E, num arranjo cuidadoso
de decorador diplomado
deixaria seu quarto
ou,se prefere, a sua sala
igual a um grande céu
tendo o maior cuidado
de fazer de tal modo o meu arranjo,
que ficasse
bem claro e definitivo.

Depois, me esconderia
atrás da cortina
a fim de ver e curtir
aquele brilho nos seus olhos,
ao descobrir o meu presente:
-o céu trazido assim
pra dentro do meu quarto!

Mas...
que adianta sonhar?
Estrelas são estrelas
e nunca poderão baixar à terra...


No entanto,Amiga,
se você
olhar hoje à noite, pela janela
eu juro, que verá
algumas estrelinhas
piscando pra você
como a dizerem:
"Uma ave me contou que hoje é seu dia!
Meus parabéns!
FELIZ ANIVERSÁRIO!"

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Denominações afetivas



Walnize Carvalho




Nunca tive apelidos... Aliás, nem eu e nem minhas irmãs. Nossos nomes nasceram da junção de sílabas dos nomes de nossos pais.
Parece que respeitando o poeta (afinal, papai também escrevia sílabas metrificadas) a coisa assim se fez.
Escrevendo a palavra papai (que não é apelido), assim como mamãe, titia, mana, dindinha, vovó, bisa e outras que surgiram da linguagem das crianças, percebo que estas denominações afetivas incorporaram ao chamamento e, na maioria das vezes, substituem o próprio nome das pessoas.
Sei da história de um neto que ficou surpreso ao ouvir alguém da casa chamar sua avó pelo nome e contestou: - Vovó é vovó, não é Maria!...
Como também ouvi (não me contaram) uma esposa chamar o marido de pai e este chamá-la de mãe deixando atônito um distraído senhor que não captou o código do casal.
Contando um pouco de mim, até que já ensaiaram chamar-me de Wal (não vingou) e fui “Marta Rocha” em criança pela semelhança da cor dos olhos (título que ser perdeu no tempo).
Não me frustro de não ter apelidos, uma vez que tenho mãe, irmãs, madrinha, afilhados, filhos e netas que de tanto mencioná-los já me premiam com a alcunha de coruja.
Pensando bem, apelidos são formas de demonstrar carinho mas também, quase em sua maioria, traduzem um jeito jocoso de desqualificar o outro.
Na verdade, o que me preenche e até adoto como sobrenome é ser referência para o próximo.
Ser chamada de amiga (quando você se empenha por merecer); ser considerada um ser especial; estar tatuada no coração do outro... é bom demais!
Imagina alguém confessar: - Gosto de lhe preservar. Ou então: - Você é uma espécie em extinção. Ou num arroubo dizer-lhe: - Você é uma reserva moral! Chique, não é?!
Pode parecer chinfrim, mas ouvir ao telefone uma amiga confessar: “Você é como o sol: não aparece todos os dias, mas eu sei que ele existe”. Você se acha, no mínimo, uma superstar!
E que tal encontrar na rua com uma velha conhecida e ela lhe saudar: - Menina, como está sumida! Este “menina” faz você ganhar o dia ou, quem sabe, anos de vida.
Há, é claro, alguns exageros. Exemplo típico vem de algumas atendentes de telemarketing que adoram nos chamar de “querida”. Argh!
Quer elogio mais animador (?!?) alguém chamá-la de “fofinha” quando na verdade seu manequim já está na casa dos 46?
O certo é que gestos de ternura valem mais do que qualquer honraria ou título.
E quando bem empregados atuam como um cafuné na alma.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

História em quadrinhos


Walnize Carvalho
Manhã de sexta-feira.
Ida ao shopping.
Entre pessoas apressadas, curiosas, mal-humoradas, com sacolas, com crianças, cenhos fechados, observadoras, casais de namorados... Ela passa, a mulher.
Observa o olhar faminto. Uns com fome de guloseimas, outros de consumos materiais.
E como o lugar é propício para diversão, lazer e prazer, flagra sorrisos de felicidade: da moça no balcão da loja olhando as fotos reveladas; da jovem na livraria recebendo um livro de presente; da menina comprando sorvete de três sabores; da senhora pesando na balança da farmácia.
E mais a alegria estampada no senhor sorvendo vagarosamente o café expresso; do menino jogando videogame; do rapaz assistindo esporte na tevê da loja; do idoso conferindo a tabela de promoção de remédios...
Continua andando.
Um “flash” a faz parar. Uma pessoa a observa.
Está diante de um espelho. A mulher e a escritora frente a frente completam os personagens da história em quadrinhos de uma revista diária.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Elas estão crescendo...


Walnize Carvalho
Lembro-me bem, com que carinho, falei sobre elas : “As meninas circulam meu dia- a - dia. Jogam-me na roda, no centro da roda, na berlinda. A romântica puxa-me pela saia, quer que abre gavetas, escreva emoção sentida em qualquer folha de papel.A vaidosa coloca-me frente ao espelho,quer me ver bem - olhos brilhantes - batom bem retocado nos lábios .A organizada olha o relógio, ajeita a roupa, combina cores de calçado e blusa ,vai à luta cumprir jornada e é a mesma que chega comigo ao lar e insiste em brincar de “casinha”.A desprendida (cabelos ao vento) corre lépida para ver o mar, o luar,ou alguém para falar...agitada deixa-me quase sem ar! Mas, há a menina assustada, que vez por outra vem visitar-me na calada da noite...se achega de mansinho, pede-me colo e uma historinha que a faça dormir...E assim, brincando com elas de “bem-me-quer e mal-me-quer” encontro no dia-a-dia minha essência de Mulher!...”
E, de repente, dia desses percebo o desassossego .A um canto as cinco meninas cochichavam dando-me a nítida impressão que falavam a meu respeito.
Aproximaram-se de mim e novamente colocaram-me na berlinda.A desprendida tomando as dores das outras,iniciou as reivindicações: -Não somos mais crianças! Queremos liberdade!Eu, por exemplo, estou entediada! Você - apontou-me- só quer saber de viagens virtuais! De vez em quando,vamos a um cineminha com a condição de que eu fique com modos de menina comportada. Não me leva para ver o mar, o luar ...
Foi a deixa para que a vaidosa entrasse em campo:-Para onde foram nossas idas constantes ao salão de beleza, às compras nos shoppings?
Bastou para que a organizada se manifestasse : -Aposentou se do trabalho e da vida social também? Até as nossas brincadeiras de “casinha” se tornaram enfadonhas de tão rotineiras!
A assustada começou a cantarolar: “Eu perdi o medo/o medo da chuva!...” E acrescentou,com ares de superioridade: -Nada como um bom livro de cabeceira para me levar ao sono!
Sem ação e sem resposta fiquei por ali, pensativa, durante alguns minutos.
Levantei-me da cadeira e me preparava para uma ducha fria, quando alguém enlaçando-me pelo pescoço sussurrou aos meus ouvidos: - Quero que fique tudo como está! Serei sempre sua companheira!
Saímos abraçadas e emocionadas em busca de papel e caneta: eu e a menina romântica.