sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Cercas


Walnize Carvalho


Andando pelas cercanias

da cidade

Vejo que

mais e mais

precisamos de cercas.

Da prisão de olhares

de ternura

Do contorno de abraços

de afeto

Da cercadura de gestos

de amor

Do muro de atitudes

de amizade.


E deixando

de ser

reféns de preconceitos.

Por certo

seremos

prisioneiros – libertos

de

nós mesmos.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Se eu voltasse a ser criança


Walnize Carvalho

Ah!
Se eu voltasse a ser criança
A criança de verdade que fui...

Se este sonho
Se tornasse realidade.
Sentir a infância.
Voltar no tempo...

Viver
Novamente
Um mundo de sonhos
_sonhos dourados
Com bonecas
De pano
De louça...

Viver novamente
Um mundo à parte
Todo meu
Inteiramente meu...

Um mundo
Que não pode ser:
Trocado
Roubado
Muito menos vendido
Porque
As fadas
Os dragões
E Cinderelas
Não têm preço.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Conversinhas


Walnize Carvalho

No teatro da Vida procure ocupar papéis alternados. Ora “palco”, ora “platéia” e outras vezes “bastidores”.
Revezando funções dá para se ver o “espetáculo” de vários ângulos e matizes.
Aprenda com o “eclipse”. Um astro deixa de ser visível no todo ou em parte mas nem por isso – sol e lua – deixam de dar um “show” no céu.
• Fale... Olhe. E principalmente escute. Estamos tão carentes de ouvintes!..
• Ouça o papo de um idoso por mais repetitiva que possa ser a sua história.
• Se permita chorar em público, a se olhar no espelhinho dos carros estacionados nas ruas, a perguntar como a máquina do banco funciona, a cantarolar empurrando carrinho no supermercado sem se preocupar de estar pagando “mico”.
• Saiba distinguir até que ponto você é “bom” ou é apenas “útil” para alguém.
• Cuide para que o seu corpo, não tenha ossos enfraquecidos como seu espírito não sofre de “osteoporose”.
• Aprenda a se fazer companhia. Solidão nem sempre é isolamento.
• Procure ter pares no seu dia-a-dia.
Ter par não é só ter “par romântico”.
Podemos ter parceria em idéias, gostos, prazeres independente de idade e sexo.
• Tenha como meta a palavra “entusiasmo”.
Ele é que nos faz caminhar, em qualquer idade, em qualquer ocasião ou oportunidade.
Ânimo sempre! Quer seja para comprar aquele vestido tão sonhado na vitrina ou aquele batom no camelô da esquina.
• Organize sua agenda pessoal mas não se esqueça de colocar nela compromissos literários e culturais.
• Esqueça as marcas do tempo em sua face. Não queira enrugar a alma.
• Suavize seus atos rotineiros. Não os faça como se cumprisse tarefas.
• E ao acordar descortine o dia como se ouvisse o chamamento:
“Hoje tem espetáculo”! e responda:
- “Tem, sim senhor”.
Verifique qual o papel a você determinado. Abrace-o com garra. E “sucesso”!

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Uma senhora chamada Cidade



Walnize Carvalho

Na varanda sentada em sua cadeira de balanço, a velha senhora observa a planície.
Vê por entre os verdes canaviais alguns filhos seus com foice e enxada em mais uma labuta diária. E, suspirando, balbucia: - Estes são o meu orgulho!
Fechando os olhos visualiza outros tantos que como aqueles madrugam em busca do pão do dia-a-dia.
A prole é imensa: vai de operários a doutores.
Sabe quantos têm por ela respeito e consideração. Mas... enxugando as lágrimas reconhece que há os que se perderam no caminho e a fazem sofrer.
Lembra que em tempos idos ela – esta agora mãe sofrida – era reconhecida pelos seus valores e tradições merecendo o título honroso de “Espelho do Brasil”.
Recorda também com saudade de ter sido chamada de “Intrépida Amazona”, de “Terra do Açúcar” e porque não da goiabada dado o perfume que exalava das entranhas de suas usinas e fábricas.
Mesmo amargurada sabe que ainda há muitos que desejam vê-la soerguida. Almejam que se levante da cadeira e saia do estado de prostração em que se encontra.
Pois, não foram poucos os filhos que a cantaram em prosa e verso.
Não foram poucos os filhos que levaram o seu nome para rincões distantes...
Um breve cochilo a faz sonhar.
Tem a nítida impressão de ouvir o apito da Fábrica de Tecidos; o movimento de entra e sai de “suas crianças”.
Parece ver o alarido de seus meninos descendo as pontes pedalando suas bicicletas - verdadeira revoada de pássaros.
Desperta.
Volta o olhar sobre o horizonte.
Nova onda de nostalgia a invade e se pergunta: - O que fez com que alguns de seus filhos se tornassem irreconhecíveis, verdadeiros vilões? E se responde com certa culpa (as mães sempre se acham com culpa): - Seria a fortuna adquirida e a ânsia de querer mais?...
Levanta-se da cadeira de balanço.
Caminha para o quarto. Deposita sobre a cômoda o terço que trazia em suas mão
E como “coração de mãe não se engana” tem esperança de que os filhos desgovernados retomem o caminho da retidão e devolvam-lhe a dignidade e honradez.

sábado, 24 de setembro de 2011

Liberdade maior



Walnize Carvalho

Queria ser livre
Correr mundos
Viver!...
Até que um dia
(que dia!)
Uma ventania de fim de tarde
Satisfez
O seu desejo.
Que felicidade!
Nos braços do vento
Foi em busca
Da vida sonhada
Da viva
Somente vivida
Pelos passarinhos
Que vinham pousar na árvore em que morava.

E
Lá se foi ela.
Feliz
Correu quintais
Atravessou muros
Percorreu quintais...

Até que...
Um vento maroto
A fez cair
No rio que cortava a cidade.
Levada pelas águas
Se foi para
um mundo
liberto
um mundo
distante
pra não mais voltar..

-Esta é a história de uma folhinha que um dia se foi da árvore do meu quintal.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Alívio




Walnize Carvalho

Chegara apressada a casa.
Mal tivera tempo de abrir a porta e...calçados pro ar!
Correra em busca de algo que para ela seria de extrema necessidade.
Viera, há poucos minutos atrás, pela rua distraída e ansiosa . Nem vira a vizinha com seu “boa tarde”costumeiro.Trazia nas mãos, flores colhidas na calçada.
Chegara realmente apressada.
Estaria em busca de um copo d’agua para matar a sede, já que o sol forte da tarde de primavera com ares de verão ainda brilhava no céu?
Estaria à caça de um analgésico para uma eventual dor de cabeça, pois o dia de trabalho fora exaustivo?
Estaria necessitada de farta refeição,pois estivera tão atarefada que não tivera nem tempo de lanchar?
Não. Como uma criança travessa que sobe na cadeira em busca de guloseimas dentro do armário ela dirigiu-se à cozinha preparou um chá, ajeitou na bandeja, com biscoitinhos e uma jarra miúda onde colocou as flores.
Abriu o computador.Com a setinha (que para ela era mágica) clicou no site preferido.
Lá encontrou a poesia ,que bem sabia, iria aliviar a sua alma.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Freddie for a Day

Depois de muitos e muitos meses resolvi postar algo por aqui.
Freddie Mercury completaria no último dia 5 de setembro 65 anos. Entre as várias iniciativas para marcar a data está a disponibilização do antológico show em Wembley.
Freddie for a day

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Risos


Walnize carvalho

O sol amanheceu rindo pra ela. Lembrou-se de que, em criança, sempre ria...sorria ... dava gargalhadas.
Quando, com a prima, que vinha à cidade para as festividades do padroeiro se reunia riam,riam.
Contava piadas, ria. Contava histórias, ria. Adolescente, não mudou nada. Ria com as colegas, dos professores, de tudo que eles falavam. Ria ao telefone. Ria de si mesma Ria dos outros e para os outros .
Adulta, ela continuava rindo. Na escola, já então professora, fazia quadrinhas humorísticas, ao fim de cada ano letivo ofertava- as aos colegas e funcionários.
Ria,riam todos .
O tempo foi passando com riso ou pouco riso, os anos escoavam.
Um dia, uma amiga comentou: “Quem ri demais provoca ruga em volta dos olhos”. .Olhou-se no espelho. Lá estavam elas,as rugas .Achou injusto que as pessoas alegres envelhecessem rapidamente .
Continuou rindo e filosofando: “Minhas rugas em volta dos meus olhos são alegria”.Mas, de vez em quando , se flagrava no espelho, olhando aqueles sulcos na face .Começou a rir frente ao espelho.Frente a frente, num duelo com o inimigo. Até que teve uma certeza. Uma certeza da qual não achava graça. Aquele semblante enrugado não era marca comum da idade. Era sua tristeza - sua imensa tristeza - escondida de todos e de si mesma com tanto afinco e cuidado durante toda a vida, que agora começava a aflorar.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A inquieta


Walnize carvalho


Ela não me dá sossego.

Por sua causa
Atravesso ruas sem ver sinal luminoso
Entro no banho de relógio no pulso
Dou boa noite em pleno meio dia.

Por sua causa
O café esfria na xícara
Perco o sono
Ganho peso.

Por sua causa
Rabiscos palavras desconexas
esquecida dos óculos
sobre a mesa.

Por sua causa
Rego plantas conversando
Ouço pássaros
fazendo dueto com eles.

Por sua causa
Falo
Rio
Choro sozinha.

É uma criança inquieta,
que só dá trégua
Quando a coloco
no lugar que mais almeja - o papel
Ela: a Poesia.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Alívio



Walnize Carvalho

Chegara apressada a casa.
Mal tivera tempo de abrir a porta e...calçados pro ar!
Correra em busca de algo que para ela seria de extrema necessidade.
Viera, há poucos minutos atrás, pela rua distraída e ansiosa . Nem vira a vizinha com seu “boa tarde”costumeiro.Trazia nas mãos, flores colhidas na calçada.
Chegara realmente apressada.
Estaria em busca de um copo d’agua para matar a sede, já que o sol forte da tarde de primavera com ares de verão ainda brilhava no céu?
Estaria à caça de um analgésico para uma eventual dor de cabeça, pois o dia de trabalho fora exaustivo?
Estaria necessitada de farta refeição,pois estivera tão atarefada que não tivera nem tempo de lanchar?
Não. Como uma criança travessa que sobe na cadeira em busca de guloseimas dentro do armário ela dirigiu-se à cozinha preparou um chá, ajeitou na bandeja, com biscoitinhos e uma jarra miúda onde colocou as flores.
Abriu o computador.Com a setinha (que para ela era mágica) clicou no site preferido.
Lá encontrou a poesia ,que bem sabia, iria aliviar a sua alma.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Anéis e alianças


Walnize Carvalho

Passo pela sala. A tevê está sintonizada em um telejornal. No canal, as notícias são levadas ao telespectador através da fala do locutor e de legendas ao pé da tela.
Detenho o passo apressado e leio com curiosidade: “Sonda descobre mais dois anéis de Saturno”.
A cabeça gira no tempo e logo a figura do professor de Ciências dos idos do ginásio (não me recordo o seu nome) aparece aos meus olhos. Ele e a explicação detalhada: “Os anéis de Saturno são constituídos de mistura de gelo, poeira e material rochoso”. E seguia: “Os maiores anéis possuem nomes próprios”...
Reorganizo as idéias e saio à rua. Meu destino é a empresa de telefonia local.
Chego ao majestoso prédio azul, que fica na confluência das ruas Treze de Maio com Formosa, cheia de papéis e perguntas.
Reflito. Haverá alguém para dar-me a informação de que preciso? Afinal, são tempos “on line” e, por certo, não encontrarei cabines, sorridentes telefonistas, listas telefônicas e nem filas de espera.
Abro a porta de vidro fumê. Entro no ambiente de ar refrigerado e computadores. O segurança (homem alto, forte, meio sorriso e terno escuro) após minha indagação aponta-me a sala em frente.
Dirijo-me à atendente. O ar frio do recinto não a contamina, pois o atendimento, além de pessoal, é complementado de calor humano e de dados precisos.
Débora (é este o nome que está no crachá) – a solícita funcionária – explica-me a possibilidade de união em “um só pacote das telefonias fixa, celular e o uso da Internet”.
Casamento perfeito, pensei.
Ao entregar-me o protocolo de atendimento meu olhar fixa em suas mãos. O dedo anelar esquerdo ostenta uma aliança larga e dourada. Em suas unhas esmaltadas destacam-se minúsculos brilhos como fossem estrelinhas.
E, novamente, a fala mansa do mestre ecoa em meus ouvidos: “Como no velho ditado, onde há fumaça há fogo, em Saturno se há um anel possivelmente há uma lua”.
Deixo o prédio.
Retorno à rua meio atônita, “no mundo da lua”, pois inúmeros afazeres me aguardam no decorrer do dia.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Em tempo de festa do Padroeiro...


Coração em festa

Walnize Carvalho

O mês de agosto que chega.
O resgate de um agosto qualquer da remota juventude atravessou o dia. Dia de sexta.
Na memória, a ansiedade com que eu aguardava a chegada dos primos, que vinham do interior para a festa do padroeiro da cidade. Vinham na véspera do grande dia.
Como que fazendo contraponto com as batidas do meu coração, o relógio de parede da casa da vizinha batia tão alto e sempre às horas certas.
Um grito amigo ecoava na porta da casa: - Bota água do feijão! Era o código que a família (tios e primos) acabara de chegar.
Na bagagem, além de roupas e calçados novos, traziam doces caseiros (ainda quentinhos) em compoteira amarrada por toalha de saco alvinha e bordada com o dia da semana: SÁBADO. Cuidadosamente, o recipiente era guardado na cristaleira de casa para “depois do almoço” – sentenciavam os adultos.
E grande era a pressa de almoçar, saborear a sobremesa e, principalmente, passar o restante da tarde conversando, rindo e nos preparativos para o dia seguinte.
Seis de agosto. Seis da matina.
Éramos acordados com o sino de igreja distante. Saltávamos da cama e disputávamos o lugar na fila do banheiro para, após o café matinal participarmos de quase todos os eventos da Festa do Santíssimo Salvador.
E tudo começava pela manhã.
Primeira parada: Corrida de bicicletas onde assistíamos em frente ao“Balalaica” na Alberto Torres, aos velozes atletas. Em seguida, nosso destino era a Beira Rio para apreciarmos as Regatas. O remo ( um dos mais tradicionais esportes de nossa cidade) era um espetáculo à parte.
Retornávamos à casa para o almoço,um breve descanso e esperar que os adultos avisassem que poderíamos nos arrumar para o “segundo tempo” da Alegria.
Era tardinha. E lá íamos nós, rumo às festividades.
Nós, meninas, de saias plissadas, casacos com golas de lã, sapatos de saltinho “Luiz XV” e batom “Labatte” nos lábios. Nos olhos, um brilho de felicidade.
Como na parte da manhã, íamos a pé e de mãos dadas. O eco de nossas gargalhadas felizes corria pelas ruas como o vento sul que sempre se fazia presente nesta ocasião do ano.
Caminhávamos da Rua do Gaz até a Rua Sete. E nesta, a parada dos adultos para olharem as vitrines enfeitadas era obrigatória: calçados na Almeida, louças no Dragão, tecidos na Imparcial, o que aumentava a impaciência da meninada ávida em alcançar a praça.
Como a chegar em um oásis, avistávamos as torres da Catedral. Com sacos de pipocas à mão (os meninos com cataventos de papel e bandeirinha nacional) postávamos em frente ao templo para observar o encontro de amigos, ouvir as bandas de música, aguardar a procissão, extasiar com a apresentação da Esquadrilha da Fumaça sobre o Rio Paraíba e admirar a tão esperada queima de fogos.
Era a festa. Festa do Santíssimo Salvador. Festa do padroeiro da cidade.
E são estas fatias de ingênua felicidade que vieram dar sabor às minhas lembranças neste agosto de 2011.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A menina e os passarinhos


Walnize Carvalho


(para a neta Clara.Escrito quando ela era menininha,hoje já está com 15 anos!)

A menina saiu do ninho( o colo da avó) e correu para a varanda da casa- casa da infância do pai.
Olhou com olhos curiosos para a rua e avistou na outra calçada, no fio elétrico dos postes , pássaros enfileirados.Curiosa, perguntou: - Vó! Onde moram os passarinhos?O que eles comem?
Dadas as devidas explicações e... brincadeira inventada.
A avó correu à mesa desfeita do café da manhã e recolheu farelos de pão.Juntas, colocaram no parapeito da janela.
Depois,escondidas,passaram a vigiar os passarinhos se alimentando...
A lembrança da neta,que viera lhe visitar(mora em Macaé) ficou registrada.E, toda manhã,como a obedecer a um ritual,a avó coloca o alimento.
Pela janela da sala vê os passarinhos virem se alimentar felizes.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A flor e a mulher



Walnize Carvalho

Passeia pelo jardim da praça.
Como um garimpeiro
Olha
Cantos
Recantos
Frestas de árvores
Teias de aranha
Ninhos e flores.

Vê uma rosa no chão:
Rosa-mulher.
Alguém a arrancou da roseira
A aspirou
E a jogou no chão.

Suas pétalas estão ressecadas
Pele de mulher clara.

Senta-se no banco da praça
Despetala carinhosamente a flor
Retocando os seus traços.

A cada pétala tirada
Descobre dentro da rosa
Uma luz
Uma beleza interior.
Um botãozinho bem vivo
Bem brilhante
Olhos azuis em um rosto enrugado.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Devaneio



Walnize Carvalho

Imaginem se pudéssemos chegar ao balcão de uma loja pedindo: - Embrulhe em papel de presente (o mais vistoso) uma caixa recheada de Paz. Ou se ligássemos para um hortifruti solicitando: - Separe duas dúzias (bem fresquinhas) de Harmonia e traga no endereço tal. Ou se fizéssemos (via Internet) uma encomenda urgente de três pacotes de Felicidade?!? No mínimo, significaria devaneio ou surto de loucura! Mas se somos todos “loucos” por esta trilogia ( paz, harmonia e felicidade ) seria uma conquista e tanto. Seria?
Convenhamos, que se nos fartássemos de tais iguarias em tamanha proporção estaríamos fadados à indigestão, tamanho peso no estômago e que antiácido algum daria jeito.
A escolha sensata é a de sempre saborearmos desses doces sentimentos enumerados, em porções balanceadas e, se possível, mescladas com amargos sabores (Dor, Tristeza e Saudade) o que torna a refeição – digamos assim – agridoce.
Se pensarmos bem, concluiremos que a vida nos oferece um banquete de cardápio variado. Só nos resta optar pelo “prato” a ser digerido.
À cada dia, desde o café da manhã pesamos na balança do bom senso nossas decisões. Devemos observar com cautela, qual o caminho a seguir: ou renunciamos a um projeto tão sonhado ou persistimos nele até que se concretize.
Muitas vezes, por açodamento, procuramos o caminho mais curto, mas que nem sempre nos leva a lugar algum.
De outra feita, somos tomados por forte indecisão. É como que chegássemos a um self service; parássemos diante de variada gastronomia e nos indagamos: feijoada ou massa?...
No “bate e rebate” do cotidiano estamos para perder ou ganhar; lutar ou resignar; nos reprimir ou nos libertar.Não é esta a receita de um bem viver?
Há dias em que o choro nos lava a alma. Em contrapartida, há momentos em que o nosso riso em excesso revela uma falsa euforia.
Repetimos à exaustão: “Todos temos o direito de ir e vir”. Mas sabemos sempre quando ir ou quando vir?...
Será que avaliamos com precisão quando é a Razão ou o Coração que deve falar mais alto? ...
São estas indagações que dão tempero a nossa vida. Concordam?
Retomo ao devaneio do início da crônica: ter por inteiro a Paz, a Harmonia e a Felicidade.Pura ilusão! Elas nos são servidas em fatias!...
O interessante é nestes momentos cada um de nós: apaziguar o coração, harmonizar o espírito e se felicitar com os consagrados versos : “Felicidade...Esta árvore milagrosa que supomos/ arriada de dourados pomos/ existe sim,/ mas nós não a alcançamos/ porque está sempre onde a pomos/ e nunca pomos onde nós estamos”.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A menina no cinema


Walnize Carvalho

Foi só ela entrar no cinema para que se transformasse.
As cadeiras acolchoadas e aconchegantes (verdadeiro colo) e mais a trilha sonora a transportaram. Abrindo o saco de pipocas – pensou – sem disfarçar o sorriso: - Estou deixando lá fora a pessoa adulta que sou e me encontrando com a “minha” menina.
. Bem posicionada deixou que os olhos se fixassem na tela. Nem pestanejava. Colocava pipocas na boca com avidez e displicência deixando algumas caírem sobre seu colo.
Aos poucos, embalada pela magia da história, foi se distanciando de si mesma.
Era tempo de férias.Férias de julho. Havia crianças e jovens barulhentos à sua volta. Ela não os escutava. Também estava de férias: férias “daquela” que deixou lá fora.
Alguém pediu (pela terceira vez, talvez) licença para passar e sentar-se na mesma fileira.
- Hã!?..., pois não, pode passar! – respondeu de forma automática.
E por minutos se dispersou da cena e pensou “naquela” que ficou do outro lado da sala de projeção.
Suspirou. – Coitada, tão cheia de compromissos, tão cheia de contas a pagar, tão cheia de problemas para solucionar, tão submersa em ocupações e horários, tão... tão.... robotizada!
Em certas ocasiões tão cruel se olhando no espelho e questionando: - Já viu suas rugas na testa? – Reparou nos seus cabelos embranquiçados? – Poxa! Você engordou, heim!? E a mais terrível das provocações: - Não vê que você não é mais uma menina!...
Mexeu-se na poltrona e balbuciou: - Não! Aqui neste momento “ela” não irá me abater.
Tentou ver o filme. Mas de novo cenas legendadas passaram diante do seus olhos: “a outra” até tem certa razão, afinal, ser responsável, cumpridora de suas obrigações não é papel fácil de se representar.
Novamente o pensamento contraditório: mas tanta disciplina todo tempo? Todo dia? Toda vida? Definitivamente, não! – deixou escapar em voz semi-alta.
Afinal, ela precisa fugir um pouco dos compromissos; dar asas à imaginação; ser feliz sem hora marcada e, acima de tudo, eliminar a culpa. Assim, de repente, no meio da tarde estar no cinema desfrutando o direito de ser criança.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Eu não sei pra que que a gente cresce


Walnize Carvalho

Amanheci com estes versos de Ataulfo Alves batucando na cabeça.
E fiquei horas cantarolando porque gosto de “Meus tempos de criança” e também para contrapor ao som do bate-estaca que vinha de uma obra em frente à rua onde moro.
E de tanto repetir me dei conta de que o lamento de crescer é de perder a ingenuidade. E dia após dia, ela – a ingenuidade – nos é tirada.
Num giro de memória chego ao mês de julho de infâncias distantes. Era sinônimo de férias, descompromisso e encerramento de um ciclo. Hoje o tempo é um menino travesso que corre atrás de nós a nos alcançar os calcanhares sem, ao menos, nos dar a chance de pedir “mandrake”.
Quem diria que transformariam os heróis em quadrinhos Mônica e Cebolinha em adolescentes e matariam o Batman?
Somos a todo momento lembrados de nossas obrigações. As siglas IPTU, IPVA, IR, PIB, NET estouram aos nossos olhos brilhando mais do que os POW... POW dos fogos de artifício de festas juninas
Sinceramente, como esquecer a antiga delicadeza dos encontros fraternos, da troca espontânea de presentes tão contrastantes à atual comercialização de afetos, dissimulação de simpatias e a ânsia das pessoas que se obrigam a ser felizes a qualquer preço?...
Neste ping-pong entre passado e presente, por certo, vários paralelos seriam lembrados que, fatalmente, não caberiam neste espaço.
Prefiro estancar as lembranças ao mesmo tempo em que sou absorvida pelo silêncio da rua.
Olho pela janela e vejo que as máquinas silenciaram. Os operários interromperam a obra e fazem sua sesta.
Volto a mim mesma e encerro esta crônica – nostálgica, irônica e saudosista – com outro trecho da canção que diz: “Eu era feliz e não sabia..."

sexta-feira, 24 de junho de 2011

De mãos dadas com a alegria


Walnize Carvalho

Estamos em plena temporada das festividades juninas.E tudo gira em torno destes santos milagrosos:Santo Antônio (13/06),São João (24/06)- hoje- e São José ( 29/06). Eu falei juninas? Pois de há muito mudaram (com raras exceções daqueles que ainda conservam-nas no referido mês e respectivas datas) para julho( julhinas) e até agosto (agostinas) !...
Mesmo assim,percebe-se que o povo é festeiro e mais do que isso, devoto. Os arraiás estão montados; as barraquinhas devidamente decoradas e com toda sorte de variados quitutes: broas de milho, cocadas, pamonhas ,quentões...
Apesar de tempos apressados e modernos sempre tem os que cultuam a tradição desta festividade, tão arraigada em nossa cultura.Isto é sempre um bom sinal.
Observo, no entanto, que há certas formas de comemorações que fogem dos padrões destes festejos.
Sempre aparece alguém que exagera em jeitos e trejeitos que não condizem com os modos do genuíno caipira, parecendo uma caricatura. E – convenhamos- tal atitude acaba por ridicularizar a si mesmo.
Não raro, há também nos trajes uma acentuada disparidade. Enquanto alguns se vestem de forma rota e desgastada, simbolizando pobreza, outros também confundem a indumentária. O que se vê são homens de botas de couro e coletes de franja imitando caubóis norte-americanos e mulheres de roupas de seda e cetim parecendo sinhazinhas extraídas dos romances de José de Alencar. Uma expressão, sem propósito, de suntuosidade.
É lamentável que pouco restou da autenticidade (principalmente nos grandes centros).Até as simples faixas amarradas em postes das cidades viraram chamadas para o “evento” em propagandas do tipo: “A gente comemora a temporada de São João com alegria do folião no Carnaval.” ou “O melhor do hip hop no nosso Arraiá.”.E nestes acontecimentos a presença de modelos, artistas globais, ex big brothers e outros notórios posam de “donos da festa”.
Ainda bem que nos bairros periféricos, distritos e cidades de porte médio os santos homenageados – Santo Antônio, São João e São Pedro – são lembrados com as tradicionais festas de roça, onde imperam comidas feitas no fogão a lenha, sanfonas entoando canções típicas e salões decorados com bandeirinhas. Sem deixar de fora a dança da quadrilha (de origem francesa com a contribuição caipira), onde os marcadores comandando os passos da dança fazem com que damas e cavalheiros girem no salão ao anúncio do “Anavan,Anarriê”
Ao final, o que se observa é que todos – modernos ou conservadores – na “Grande Roda” desejam (ainda que por algumas horas) viver a ingenuidade tão distante de nossos dias.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Classificados


Walnize Carvalho

Vende-se um andar cansado.
Compra-se um ombro amigo.
Troca-se uma lágrima por um sorriso.
Aceita-se um papo sem consignação.
Aluga-se um ouvinte para alguma poesia.
Passa-se o ponto de interrogação de “existe a paz?”
Procura-se alguém com tempo
Para desperdiçar o tempo.
Perdeu-se a alegria nas esquinas da vida:
Gratifica-se com um abraço
a quem a encontrar.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Duelo íntimo


Walnize Carvalho

Atravessou as esquinas da VIDA.
Decidida entrou no SALOOM.
Olhares se cruzaram em sua direção.
Porte assustador.
Uma flor vermelha no cabelo.
Um brilho novo no olhar.
Indumentária simples, mas sensual.
Avassaladora. Visceral. Ares de bandida.
Jeito de xerife. Dona da situação.
Causou impacto, temor e silêncio.
Aproximou-se do pianista da casa.
Quis ouvir a “Nona Sinfonia” de Beethoven.
Dirigiu-se ao balcão.
Tomou uma dose de coragem.
Mirou em todas as direções
e surpreendentemente
distribuiu versos românticos.
Atirou pétalas de rosas.
Matou o tédio, a solidão e a inocência
e acentuadamente
FEMININA
saiu do recinto levando como refém, o AMOR.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Amor Maduro


Amor
maduro
é
fruto
escolhido
e
colhido do pé.

Amor maduro
é
sonho
vivido
e
imbuído de Fé.

Amor maduro
é
afeto
estocado
e
derramado
de uma só vez.

É recontar tudo outra vez.

























Amor maduro
é
paixão
revelada
e
dosada de sensatez.

Amor maduro
não é
posse
nem competição
é
serenidade
que oxigena o coração.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

De lírios e sonhos

Walnize Carvalho


Sobre a mesa , a toalha branca acetinada. Bem ao centro, lírios brancos em jarra transparente.
Meu olhar perpassa o cristal e fixa na noiva que esbanja alegria posando para fotografias.
À sua volta – noivo, pais dos noivos e padrinhos – são o retrato fiel da felicidade.
Fico por ali em minha contemplação e vagos pensamentos.
Me vem ,primeiro, à mente as palavras de Jesus,no Evangelho segundo São Mateus: “Olhai os lírios do campo ; eles não trabalham nem tecem; no entanto eu vos digo: mesmo Salomão,em toda sua glória, não se vestiu como um deles”.
No segundo momento, reflito sobre a simbologia do branco: Paz, serenidade, clareza ,quietude, expressão de luz e do Bem.
Fazem eco em meus ouvidos as palavras proferidas ao pé do altar: “ hei de amar-te todos os dias de minha vida”.
Menos introspectiva , debruço sobre a plenitude do momento.
Constato que cerimônia de casamento é assim: momento de contrição, de emoção e também de descontração.
Todos os presentes acompanham e participam desde - os atores principais - (os noivos) como - os coadjuvantes- (os convidados) da magia reinante.
É como se estivéssemos protagonizando um verdadeiro conto de fadas.
O casal embarcado na carruagem da paixão, adornada de sonhos e desejos, passa pelo cortejo que reverencia e aplaude efusivamente.
Seguem-se os abraços, os votos de perene felicidade, os brindes regados a champanhe, os comes e bebes...
E quem ousa quebrar o encantamento e projetar o futuro , meditar sobre a prole, visualizar dificuldades , imaginar as etapas a serem vividas e vencidas?
Pouco importa ,neste momento, conjeturar qual das expressões irá vingar: “Felizes para sempre”, “Eterno enquanto dure” ou “Até que a morte os separe” ...O momento é do coração sobrepor a razão.Planejar o que virá é puro delírio!
O Amor - o dono da festa - carrega os noivos para o meio do salão.
Eles dançam, riem, rodopiam esquecidos dos que testemunham a bem aventurança.
Como esquecido também sobre um móvel,o buquê da noiva.De lírios brancos.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

No corre corre do dia a dia...


Sobras e faltas
Walnize Carvalho

Sobra vontade
Falta entusiasmo.

Sobra ideia
Falta palavra.

Sobra projeto
Falta realização.

Sobra riso
Falta alegria.

Sobra castelo
Falta areia.

E assim...
Vai-se largando pelo caminho
O que não se conseguiu juntar...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Esquisitice


Walnize Carvalho

Do Carmo passa por meu portão por volta das 11 horas de certa manhã. O sol abrasador se faz presente, mas a senhorinha está toda arrumada para o seu passeio, sem nem se dar conta do imenso calor. Pára e relata com a tradicional simplicidade o trajeto daquela manhã.
Convido-a para entrar. – Não, outro dia! – responde-me. E revela o seu prazer matinal: Irá ver “as modas”; rodar pelos shoppings e Bancos, onde (mesmo sem nada comprar e nenhuma transação bancária efetuar) desfrutará do ar refrigerado que estes ambientes possuem. Sentará em um dos bancos da agência dos Correios e ah! ... irá aos supermercados comparar preços.
Na sua esperteza-inocência não percebe o sorriso maroto que surge no canto dos meus lábios.
Conta sem pudor: - Adoro ter 60 anos!... Tenho passe-livre que me leva de ônibus a conhecer lugares e pessoas. E arremata transpirando felicidade: - Amanhã vou sair bem cedo de casa. Pretendo ir a São João da Barra. Pela janela da condução irei olhando a natureza e recebendo a brisa no rosto. Chegando lá, visitarei a terra natal de minha avó. À tardinha estarei de volta.
E completa, radiante:
- Soube que as copas das árvores da praça principal estão podadas. Ficaram uma beleza só!
Esquisitice ou felicidade? Qual o melhor título?!

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A menina do cacho dourado



Walnize Carvalho

A menina é loura. Tem um anel de cabelo no alto da cabeça: um cacho dourado.
Mora em uma casa grande, de janelas altas. Próxima à rua. Rua movimentada.
Suas tardes ( já que nas manhãs vai à escola) são passadas na janela, olhando os que passam na calçada.
Seu pai é alfaiate.
O ateliê fica no primeiro cômodo da casa, bem na face da rua.
Encostada à janela, encontra-se uma mesa alta. De alfaiataria. É nela, que a menina sobe para espiar a rua. E só o faz, quando o pai não está cortando tecidos, para a confecção de ternos de seus fregueses.
Sobre a mesa e pela janela alta ela vê o mundo: uma enorme vitrine. Nela perfilam pessoas, carros, animais...
E sonha...Sonha correr livre pela calçada, atravessar ruas, ir à esquina comprar balas.Mas, qual? Só acompanhada dos pais ou da professora, que mora na mesma rua e costuma levá-la a escola.
A menina na janela faz projetos: usar óculos, um deles. Pensou até em pedir à mãe para ajudá-la nas tarefas domésticas descascando cebolas. Quem sabe, com olhos vermelhos e lacrimejados conseguiria tal feito? Recebeu um “Não”.
No outro dia, passou pela calçada uma moça de braço fraturado e engessado. Fechou os
olhos e sonhou...Sonhou ter subido na goiabeira da casa da avó, que mora no interior.Desequilibrou e...tbum! ganhou o chão e o “braço postiço”.Acordou e parece ter ouvido da mãe:”meninas comportadas não sobem em árvores!”...
A menina segue em seu devaneio. Ela e a janela.
Agora observa as folhas, que caem das árvores. Embarca no vôo com elas e percorre calçadas, cidades, mundos!...
As pessoas passam. Acham graça do seu sorriso,seus trejeitos,seu canto.E exclamam:
-Olha, que garota bonitinha! Que bons modos! Ela tem um cacho dourado na cabeça!
A menina sorri. Desce da janela.
O caderno de matemática a espera no seu quarto.