sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Visita natalina

Walnize Carvalho
Manhã de vinte e cinco de dezembro.
A menina não foi a primeira a se levantar, como de costume. Nem tão pouco a que procurou bem cedo seu presente no sapatinho ao lado da cama.
A mãe estranhou. Veio olhar. A garota ainda dormia.
Observou, que estava toda encolhidinha no canto da cama. Parecia sentir frio. - Como, se era verão?!...balbuciou, a zelosa senhora.
O instinto materno acusou, que provavelmente sonhava e que derramava um leve sorriso no canto dos lábios. Viu que os olhinhos andavam. Tremiam. Coisa própria de criança entregue ao sono.
As irmãs já haviam aberto seus presentes e nas poucas vezes em que podiam ir à rua – rua que passava o bonde bem rente a calçada - ( e a ocasião do Natal era uma delas) se preparavam para mostrar às colegas da vizinhança suas novas bonecas. Geralmente eram bonecas.
E ela, Nani... Nani? Nani era seu nome, porque demorava a se levantar, pois se foi a primeira a se deitar na véspera, tamanha a ansiedade pela chegada do Papai Noel?...
A menina acordou. Com ares de felicidade revelou aos pais, que naquela noite viu quando o Bom Velhinho chegou. Estava muito cansado, quando dela se aproximou. Aos pés de sua cama, sussurrou-lhe para que as irmãs não ouvissem: - Menininha, não conta para ninguém! Posso descansar aqui um pouquinho?
Ela permitiu. Encolheu-se para o canto e deixou que ele repousasse... Findo o mistério.

Olha, amados leitores! Talvez para uns, a história esteja incompleta; talvez para outros, Papai Noel não exista; talvez para alguns, o “sonho não acabou”e ,talvez para muitos esta singela historinha tenha servido de reflexão e saudade, da época da inocência ,a que nos transportam remotos natais.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Trajetória



Walnize Carvalho

De repente, formou-se um brilho –um fulgor.
E,aos poucos,daquele claridade algo nasceu.Algo brotou
Va- ga- ro – sa- men – te.
E ,de repente,
Foi crescendo...crescendo...se evoluindo
E, de travessa saiu correndo...correndo
Descendo medrosamente,
Escorregando rapidamente
Como se quisesse desabafar.
Como se quisesse gritar
Ou mesmo se encontrar
Fugir
E nessa trajetória
Continuou a correr.
Até que
Repentinamente
Caiu
Morreu
Desabafou
Se encontrou!...

Este foi o fim de uma lágrima teimosa que brotou de um olhar triste.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Travessura de mãe


Walnize Carvalho

A mulher percebeu do seu quarto que do cômodo ao lado vinha uma claridade. Caminhou até a sala.
Olhou com olhos preguiçosos de abrir, o relógio na parede: duas horas.
Atravessou o corredor.
A luminosidade que filtrava em toda casa vinha do quarto dos filhos.
Espiou, discretamente, pela abertura da porta.
Estavam dormindo. Janela aberta. O frescor da madrugada sobre suas faces.
Eles ali dormindo, displicentemente.
Ela os olhou com ternura.
Apagou a luz do abajur. Desligou o som.
De volta à sala procurou na estante o livro “Tantas Vozes” de Ferreira Gullar . Encontrou o poema “Filhos”.(*)
Enxugou a lágrima teimosa e, numa atitude pueril, buscou no fundo da gaveta do armário da cozinha uma lanterna.
Sorrateiramente entrou no quarto. Munida de luz e caneta “pilot” transcreveu os versos na porta clara.
Escreveu. Riu. Segurou a emoção para não escapar nem um ruído que fizesse os meninos acordarem .
Acabando o poema, suspirou pensando : como é bom se criança. Ser mãe. Ter os filhos que eu tenho!
Perdão filhos! Por ter brigado tantas vezes pelas garatujas que fizeram em criança!
Filhos
Ferreira Gullar

“ Daqui escutei
quando eles
chegaram rindo
e correndo
entraram
na sala
e logo
invadiram também
o escritório
(onde eu trabalhava)
num alvoroço
e rindo e correndo
se foram
com sua alegria
se foram
Só então
me perguntei
por que
não lhes dera
maior
atenção
se há tantos
e tantos
anos
não os via crianças
já que
agora
estão os três
com mais
de trinta anos.”

sábado, 26 de novembro de 2011

Tem que ser


Walnize Carvalho

Tem que ser
obediente
complacente
convincente

Tem que ser
crítica
apolítica
dogmática

Tem que ser
humorista
otimista
altruísta

Tem que ser
guerreira
pioneira
alvissareira

Tem que ser
antenada
plugada
conectada

Ah!
sociedade
controladora
dominadora
castradora

Sou
um
SER QUE TEM
despojamento
sentimento
e
no pensamento
uma enorme vontade de acertar ...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Esperança na Arte



Walnize Carvalho

Sempre acreditei que a ARTE (assim como diz a letra de Caetano Veloso em “Desde que o samba é samba”) tem “o grande poder transformador”.
Somente ela revestida em música, pintura, dança, teatro... e – principalmente – em literatura consegue dar nova forma e sentido à vida.
Vez por outra, lê-se registros desta constatação – e, porque não dizer, inquietação – de articulistas, poetas, cronistas, e dos que lidam em geral com a palavra.
Bem se sabe que ela não atua como efeito bumerangue (bate e volta aos que escrevem), mas que corre como flecha ligeira em busca de corações desprotegidos.
Daí a importância de que a literatura tenha sempre um “palco” para se apresentar e de “platéia” que possa interagir com ela.
Por aqui se vê entidades, instituições, fundações, academias de letras, cafés literários, casas de cultura, salas de espetáculos, vários espaços em que ela “abre-alas e pede passagem” e encontra reciprocidade.
Mas... há de se querer mais!
Que ela visite mais escolas, universidades, blogs, canais de tevê, emissoras de rádio...
Particularmente, não tenho o que reclamar, pois (sem vaidade) aqui estou com meus textos que transitam livremente
É necessário que ela (mais uma vez, a literatura) faça piquete nas portas dos bancos; se infiltre em filas intermináveis de espera.
Seja sorvida entre bebidinhas e conversinhas nos points da cidade.
Torne leitura em ante-salas de consultórios médicos, odontológicos e de profissionais liberais substituindo, talvez, revistas de moda e de fofocas de artistas.
Que ela saia em passeatas pelas ruas sendo panfletada entre vendedores, comerciantes, consumidores, anônimos e curiosos.
Bata ponto nas rodas de café e seja assunto interessante entre grandes negócios feitos nas manhãs do Boulevard.
Brinque nas praças; visite presídios, orfanatos, templos e asilos. Que seja estampada em outdoors nas nossas esquinas.
Sem utopia. Dia virá em que “a arte de compor trabalhos artísticos em prosa e verso” – a literatura – será servida como prato principal aos que são famintos de transformação.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

História em quadrinhos


Walnize Carvalho
Manhã de sábado.
Ida ao shopping.
Entre pessoas apressadas, curiosas, mal-humoradas, com sacolas, com crianças, cenhos fechados, observadoras, casais de namorados... Ela passa, a mulher.
Observa o olhar faminto. Uns com fome de guloseimas, outros de consumos materiais.
E como o lugar é propício para diversão, lazer e prazer, flagra sorrisos de felicidade: da moça no balcão da loja olhando as fotos reveladas; da jovem na livraria recebendo um livro de presente; da menina comprando sorvete de três sabores; da senhora pesando na balança da farmácia.
E mais a alegria estampada no senhor sorvendo vagarosamente o café expresso; do menino jogando videogame; do rapaz assistindo esporte na tevê da loja; do idoso conferindo a tabela de promoção de remédios...
Continua andando.
Um “flash” a faz parar. Uma pessoa a observa.
Está diante de um espelho. A mulher e a escritora frente a frente completam os personagens da história em quadrinhos de uma revista diária.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Maria Alice e a morte

Maria Alice é a minha amiga mais próxima. Digo que nos conhecemos desde sempre. Tem uma rabugice única, um bom coração e é a mais passional das criaturas, o que pode ser muito ruim ou muito bom.

Minha amiga tem teorias singulares sobre várias coisas, a teoria sobre a morte e os fatos que a envolvem são de fazer rir.

Odeio gente que não sabe se comportar em velório. Velório é lugar de dor e não de contar piadas “para fazer esquecer o sofrimento” como os engraçadinhos inconvenientes apregoam.
Velório não é lugar para roupas coloridas, nem lugar para decotes. Eu já avisei: quem aparecer vestida de maneira inadequada no meu velório vai arcar com as consequências. Eu volto para puxar o pé na mesma noite.
Acho tão bonito uma viúva de luto. Hoje em dia esqueceram o luto. Acho o luto fundamental para a saúde emocional. Ele tem sua razão de ser. É momento de chorar, de coração dorido. Quem não vive o luto paga o preço em algum momento. E para isso um pretinho básico ajuda muito.
Detesto escândalo em velório. Choro verdadeiro não é escandaloso. Desmaios também me irritam. Quem sofre de verdade, chora, chora sem som, abraça os amigos, molha o rosto sempre que sente um nó na garganta. Gente que ameaça se jogar no túmulo para mim é sem educação e falsa. Quem sofre, apenas chora, chora muito. Se usar óculos escuros fica sem dúvida um choro beirando á perfeição.
Gosto de véus negros, pena que hoje quase ninguém usa chapéus com véu então... No velório do meu marido ameacei usar um chapéu, fui demovida da idéia. Usei meu véu negro e um terço. Chorei muito. Gosto de chorar.
Usei um mês de luto fechado e outros tantos de luto menos rigoroso. Vivi minha dor. Sobrevivi.

Essa é apenas a primeira das histórias da minha amiga, vou contar sempre que der vontade. Seu nome foi trocado por razões óbvias.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Explosões silenciosas



Walnize Carvalho



Céu estrelado em noite de luar...



Arco-íris em fim de tarde...



Gota de orvalho na folha...



Flores em beira de estrada asfaltada...



Marolas em rio vistas da ponte...



Pássaros em fios elétricos de postes...



Lágrima em olhar saudoso...

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Cercas


Walnize Carvalho


Andando pelas cercanias

da cidade

Vejo que

mais e mais

precisamos de cercas.

Da prisão de olhares

de ternura

Do contorno de abraços

de afeto

Da cercadura de gestos

de amor

Do muro de atitudes

de amizade.


E deixando

de ser

reféns de preconceitos.

Por certo

seremos

prisioneiros – libertos

de

nós mesmos.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Se eu voltasse a ser criança


Walnize Carvalho

Ah!
Se eu voltasse a ser criança
A criança de verdade que fui...

Se este sonho
Se tornasse realidade.
Sentir a infância.
Voltar no tempo...

Viver
Novamente
Um mundo de sonhos
_sonhos dourados
Com bonecas
De pano
De louça...

Viver novamente
Um mundo à parte
Todo meu
Inteiramente meu...

Um mundo
Que não pode ser:
Trocado
Roubado
Muito menos vendido
Porque
As fadas
Os dragões
E Cinderelas
Não têm preço.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Conversinhas


Walnize Carvalho

No teatro da Vida procure ocupar papéis alternados. Ora “palco”, ora “platéia” e outras vezes “bastidores”.
Revezando funções dá para se ver o “espetáculo” de vários ângulos e matizes.
Aprenda com o “eclipse”. Um astro deixa de ser visível no todo ou em parte mas nem por isso – sol e lua – deixam de dar um “show” no céu.
• Fale... Olhe. E principalmente escute. Estamos tão carentes de ouvintes!..
• Ouça o papo de um idoso por mais repetitiva que possa ser a sua história.
• Se permita chorar em público, a se olhar no espelhinho dos carros estacionados nas ruas, a perguntar como a máquina do banco funciona, a cantarolar empurrando carrinho no supermercado sem se preocupar de estar pagando “mico”.
• Saiba distinguir até que ponto você é “bom” ou é apenas “útil” para alguém.
• Cuide para que o seu corpo, não tenha ossos enfraquecidos como seu espírito não sofre de “osteoporose”.
• Aprenda a se fazer companhia. Solidão nem sempre é isolamento.
• Procure ter pares no seu dia-a-dia.
Ter par não é só ter “par romântico”.
Podemos ter parceria em idéias, gostos, prazeres independente de idade e sexo.
• Tenha como meta a palavra “entusiasmo”.
Ele é que nos faz caminhar, em qualquer idade, em qualquer ocasião ou oportunidade.
Ânimo sempre! Quer seja para comprar aquele vestido tão sonhado na vitrina ou aquele batom no camelô da esquina.
• Organize sua agenda pessoal mas não se esqueça de colocar nela compromissos literários e culturais.
• Esqueça as marcas do tempo em sua face. Não queira enrugar a alma.
• Suavize seus atos rotineiros. Não os faça como se cumprisse tarefas.
• E ao acordar descortine o dia como se ouvisse o chamamento:
“Hoje tem espetáculo”! e responda:
- “Tem, sim senhor”.
Verifique qual o papel a você determinado. Abrace-o com garra. E “sucesso”!

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Uma senhora chamada Cidade



Walnize Carvalho

Na varanda sentada em sua cadeira de balanço, a velha senhora observa a planície.
Vê por entre os verdes canaviais alguns filhos seus com foice e enxada em mais uma labuta diária. E, suspirando, balbucia: - Estes são o meu orgulho!
Fechando os olhos visualiza outros tantos que como aqueles madrugam em busca do pão do dia-a-dia.
A prole é imensa: vai de operários a doutores.
Sabe quantos têm por ela respeito e consideração. Mas... enxugando as lágrimas reconhece que há os que se perderam no caminho e a fazem sofrer.
Lembra que em tempos idos ela – esta agora mãe sofrida – era reconhecida pelos seus valores e tradições merecendo o título honroso de “Espelho do Brasil”.
Recorda também com saudade de ter sido chamada de “Intrépida Amazona”, de “Terra do Açúcar” e porque não da goiabada dado o perfume que exalava das entranhas de suas usinas e fábricas.
Mesmo amargurada sabe que ainda há muitos que desejam vê-la soerguida. Almejam que se levante da cadeira e saia do estado de prostração em que se encontra.
Pois, não foram poucos os filhos que a cantaram em prosa e verso.
Não foram poucos os filhos que levaram o seu nome para rincões distantes...
Um breve cochilo a faz sonhar.
Tem a nítida impressão de ouvir o apito da Fábrica de Tecidos; o movimento de entra e sai de “suas crianças”.
Parece ver o alarido de seus meninos descendo as pontes pedalando suas bicicletas - verdadeira revoada de pássaros.
Desperta.
Volta o olhar sobre o horizonte.
Nova onda de nostalgia a invade e se pergunta: - O que fez com que alguns de seus filhos se tornassem irreconhecíveis, verdadeiros vilões? E se responde com certa culpa (as mães sempre se acham com culpa): - Seria a fortuna adquirida e a ânsia de querer mais?...
Levanta-se da cadeira de balanço.
Caminha para o quarto. Deposita sobre a cômoda o terço que trazia em suas mão
E como “coração de mãe não se engana” tem esperança de que os filhos desgovernados retomem o caminho da retidão e devolvam-lhe a dignidade e honradez.

sábado, 24 de setembro de 2011

Liberdade maior



Walnize Carvalho

Queria ser livre
Correr mundos
Viver!...
Até que um dia
(que dia!)
Uma ventania de fim de tarde
Satisfez
O seu desejo.
Que felicidade!
Nos braços do vento
Foi em busca
Da vida sonhada
Da viva
Somente vivida
Pelos passarinhos
Que vinham pousar na árvore em que morava.

E
Lá se foi ela.
Feliz
Correu quintais
Atravessou muros
Percorreu quintais...

Até que...
Um vento maroto
A fez cair
No rio que cortava a cidade.
Levada pelas águas
Se foi para
um mundo
liberto
um mundo
distante
pra não mais voltar..

-Esta é a história de uma folhinha que um dia se foi da árvore do meu quintal.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Alívio




Walnize Carvalho

Chegara apressada a casa.
Mal tivera tempo de abrir a porta e...calçados pro ar!
Correra em busca de algo que para ela seria de extrema necessidade.
Viera, há poucos minutos atrás, pela rua distraída e ansiosa . Nem vira a vizinha com seu “boa tarde”costumeiro.Trazia nas mãos, flores colhidas na calçada.
Chegara realmente apressada.
Estaria em busca de um copo d’agua para matar a sede, já que o sol forte da tarde de primavera com ares de verão ainda brilhava no céu?
Estaria à caça de um analgésico para uma eventual dor de cabeça, pois o dia de trabalho fora exaustivo?
Estaria necessitada de farta refeição,pois estivera tão atarefada que não tivera nem tempo de lanchar?
Não. Como uma criança travessa que sobe na cadeira em busca de guloseimas dentro do armário ela dirigiu-se à cozinha preparou um chá, ajeitou na bandeja, com biscoitinhos e uma jarra miúda onde colocou as flores.
Abriu o computador.Com a setinha (que para ela era mágica) clicou no site preferido.
Lá encontrou a poesia ,que bem sabia, iria aliviar a sua alma.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Freddie for a Day

Depois de muitos e muitos meses resolvi postar algo por aqui.
Freddie Mercury completaria no último dia 5 de setembro 65 anos. Entre as várias iniciativas para marcar a data está a disponibilização do antológico show em Wembley.
Freddie for a day

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Risos


Walnize carvalho

O sol amanheceu rindo pra ela. Lembrou-se de que, em criança, sempre ria...sorria ... dava gargalhadas.
Quando, com a prima, que vinha à cidade para as festividades do padroeiro se reunia riam,riam.
Contava piadas, ria. Contava histórias, ria. Adolescente, não mudou nada. Ria com as colegas, dos professores, de tudo que eles falavam. Ria ao telefone. Ria de si mesma Ria dos outros e para os outros .
Adulta, ela continuava rindo. Na escola, já então professora, fazia quadrinhas humorísticas, ao fim de cada ano letivo ofertava- as aos colegas e funcionários.
Ria,riam todos .
O tempo foi passando com riso ou pouco riso, os anos escoavam.
Um dia, uma amiga comentou: “Quem ri demais provoca ruga em volta dos olhos”. .Olhou-se no espelho. Lá estavam elas,as rugas .Achou injusto que as pessoas alegres envelhecessem rapidamente .
Continuou rindo e filosofando: “Minhas rugas em volta dos meus olhos são alegria”.Mas, de vez em quando , se flagrava no espelho, olhando aqueles sulcos na face .Começou a rir frente ao espelho.Frente a frente, num duelo com o inimigo. Até que teve uma certeza. Uma certeza da qual não achava graça. Aquele semblante enrugado não era marca comum da idade. Era sua tristeza - sua imensa tristeza - escondida de todos e de si mesma com tanto afinco e cuidado durante toda a vida, que agora começava a aflorar.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A inquieta


Walnize carvalho


Ela não me dá sossego.

Por sua causa
Atravesso ruas sem ver sinal luminoso
Entro no banho de relógio no pulso
Dou boa noite em pleno meio dia.

Por sua causa
O café esfria na xícara
Perco o sono
Ganho peso.

Por sua causa
Rabiscos palavras desconexas
esquecida dos óculos
sobre a mesa.

Por sua causa
Rego plantas conversando
Ouço pássaros
fazendo dueto com eles.

Por sua causa
Falo
Rio
Choro sozinha.

É uma criança inquieta,
que só dá trégua
Quando a coloco
no lugar que mais almeja - o papel
Ela: a Poesia.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Alívio



Walnize Carvalho

Chegara apressada a casa.
Mal tivera tempo de abrir a porta e...calçados pro ar!
Correra em busca de algo que para ela seria de extrema necessidade.
Viera, há poucos minutos atrás, pela rua distraída e ansiosa . Nem vira a vizinha com seu “boa tarde”costumeiro.Trazia nas mãos, flores colhidas na calçada.
Chegara realmente apressada.
Estaria em busca de um copo d’agua para matar a sede, já que o sol forte da tarde de primavera com ares de verão ainda brilhava no céu?
Estaria à caça de um analgésico para uma eventual dor de cabeça, pois o dia de trabalho fora exaustivo?
Estaria necessitada de farta refeição,pois estivera tão atarefada que não tivera nem tempo de lanchar?
Não. Como uma criança travessa que sobe na cadeira em busca de guloseimas dentro do armário ela dirigiu-se à cozinha preparou um chá, ajeitou na bandeja, com biscoitinhos e uma jarra miúda onde colocou as flores.
Abriu o computador.Com a setinha (que para ela era mágica) clicou no site preferido.
Lá encontrou a poesia ,que bem sabia, iria aliviar a sua alma.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Anéis e alianças


Walnize Carvalho

Passo pela sala. A tevê está sintonizada em um telejornal. No canal, as notícias são levadas ao telespectador através da fala do locutor e de legendas ao pé da tela.
Detenho o passo apressado e leio com curiosidade: “Sonda descobre mais dois anéis de Saturno”.
A cabeça gira no tempo e logo a figura do professor de Ciências dos idos do ginásio (não me recordo o seu nome) aparece aos meus olhos. Ele e a explicação detalhada: “Os anéis de Saturno são constituídos de mistura de gelo, poeira e material rochoso”. E seguia: “Os maiores anéis possuem nomes próprios”...
Reorganizo as idéias e saio à rua. Meu destino é a empresa de telefonia local.
Chego ao majestoso prédio azul, que fica na confluência das ruas Treze de Maio com Formosa, cheia de papéis e perguntas.
Reflito. Haverá alguém para dar-me a informação de que preciso? Afinal, são tempos “on line” e, por certo, não encontrarei cabines, sorridentes telefonistas, listas telefônicas e nem filas de espera.
Abro a porta de vidro fumê. Entro no ambiente de ar refrigerado e computadores. O segurança (homem alto, forte, meio sorriso e terno escuro) após minha indagação aponta-me a sala em frente.
Dirijo-me à atendente. O ar frio do recinto não a contamina, pois o atendimento, além de pessoal, é complementado de calor humano e de dados precisos.
Débora (é este o nome que está no crachá) – a solícita funcionária – explica-me a possibilidade de união em “um só pacote das telefonias fixa, celular e o uso da Internet”.
Casamento perfeito, pensei.
Ao entregar-me o protocolo de atendimento meu olhar fixa em suas mãos. O dedo anelar esquerdo ostenta uma aliança larga e dourada. Em suas unhas esmaltadas destacam-se minúsculos brilhos como fossem estrelinhas.
E, novamente, a fala mansa do mestre ecoa em meus ouvidos: “Como no velho ditado, onde há fumaça há fogo, em Saturno se há um anel possivelmente há uma lua”.
Deixo o prédio.
Retorno à rua meio atônita, “no mundo da lua”, pois inúmeros afazeres me aguardam no decorrer do dia.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Em tempo de festa do Padroeiro...


Coração em festa

Walnize Carvalho

O mês de agosto que chega.
O resgate de um agosto qualquer da remota juventude atravessou o dia. Dia de sexta.
Na memória, a ansiedade com que eu aguardava a chegada dos primos, que vinham do interior para a festa do padroeiro da cidade. Vinham na véspera do grande dia.
Como que fazendo contraponto com as batidas do meu coração, o relógio de parede da casa da vizinha batia tão alto e sempre às horas certas.
Um grito amigo ecoava na porta da casa: - Bota água do feijão! Era o código que a família (tios e primos) acabara de chegar.
Na bagagem, além de roupas e calçados novos, traziam doces caseiros (ainda quentinhos) em compoteira amarrada por toalha de saco alvinha e bordada com o dia da semana: SÁBADO. Cuidadosamente, o recipiente era guardado na cristaleira de casa para “depois do almoço” – sentenciavam os adultos.
E grande era a pressa de almoçar, saborear a sobremesa e, principalmente, passar o restante da tarde conversando, rindo e nos preparativos para o dia seguinte.
Seis de agosto. Seis da matina.
Éramos acordados com o sino de igreja distante. Saltávamos da cama e disputávamos o lugar na fila do banheiro para, após o café matinal participarmos de quase todos os eventos da Festa do Santíssimo Salvador.
E tudo começava pela manhã.
Primeira parada: Corrida de bicicletas onde assistíamos em frente ao“Balalaica” na Alberto Torres, aos velozes atletas. Em seguida, nosso destino era a Beira Rio para apreciarmos as Regatas. O remo ( um dos mais tradicionais esportes de nossa cidade) era um espetáculo à parte.
Retornávamos à casa para o almoço,um breve descanso e esperar que os adultos avisassem que poderíamos nos arrumar para o “segundo tempo” da Alegria.
Era tardinha. E lá íamos nós, rumo às festividades.
Nós, meninas, de saias plissadas, casacos com golas de lã, sapatos de saltinho “Luiz XV” e batom “Labatte” nos lábios. Nos olhos, um brilho de felicidade.
Como na parte da manhã, íamos a pé e de mãos dadas. O eco de nossas gargalhadas felizes corria pelas ruas como o vento sul que sempre se fazia presente nesta ocasião do ano.
Caminhávamos da Rua do Gaz até a Rua Sete. E nesta, a parada dos adultos para olharem as vitrines enfeitadas era obrigatória: calçados na Almeida, louças no Dragão, tecidos na Imparcial, o que aumentava a impaciência da meninada ávida em alcançar a praça.
Como a chegar em um oásis, avistávamos as torres da Catedral. Com sacos de pipocas à mão (os meninos com cataventos de papel e bandeirinha nacional) postávamos em frente ao templo para observar o encontro de amigos, ouvir as bandas de música, aguardar a procissão, extasiar com a apresentação da Esquadrilha da Fumaça sobre o Rio Paraíba e admirar a tão esperada queima de fogos.
Era a festa. Festa do Santíssimo Salvador. Festa do padroeiro da cidade.
E são estas fatias de ingênua felicidade que vieram dar sabor às minhas lembranças neste agosto de 2011.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A menina e os passarinhos


Walnize Carvalho


(para a neta Clara.Escrito quando ela era menininha,hoje já está com 15 anos!)

A menina saiu do ninho( o colo da avó) e correu para a varanda da casa- casa da infância do pai.
Olhou com olhos curiosos para a rua e avistou na outra calçada, no fio elétrico dos postes , pássaros enfileirados.Curiosa, perguntou: - Vó! Onde moram os passarinhos?O que eles comem?
Dadas as devidas explicações e... brincadeira inventada.
A avó correu à mesa desfeita do café da manhã e recolheu farelos de pão.Juntas, colocaram no parapeito da janela.
Depois,escondidas,passaram a vigiar os passarinhos se alimentando...
A lembrança da neta,que viera lhe visitar(mora em Macaé) ficou registrada.E, toda manhã,como a obedecer a um ritual,a avó coloca o alimento.
Pela janela da sala vê os passarinhos virem se alimentar felizes.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A flor e a mulher



Walnize Carvalho

Passeia pelo jardim da praça.
Como um garimpeiro
Olha
Cantos
Recantos
Frestas de árvores
Teias de aranha
Ninhos e flores.

Vê uma rosa no chão:
Rosa-mulher.
Alguém a arrancou da roseira
A aspirou
E a jogou no chão.

Suas pétalas estão ressecadas
Pele de mulher clara.

Senta-se no banco da praça
Despetala carinhosamente a flor
Retocando os seus traços.

A cada pétala tirada
Descobre dentro da rosa
Uma luz
Uma beleza interior.
Um botãozinho bem vivo
Bem brilhante
Olhos azuis em um rosto enrugado.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Devaneio



Walnize Carvalho

Imaginem se pudéssemos chegar ao balcão de uma loja pedindo: - Embrulhe em papel de presente (o mais vistoso) uma caixa recheada de Paz. Ou se ligássemos para um hortifruti solicitando: - Separe duas dúzias (bem fresquinhas) de Harmonia e traga no endereço tal. Ou se fizéssemos (via Internet) uma encomenda urgente de três pacotes de Felicidade?!? No mínimo, significaria devaneio ou surto de loucura! Mas se somos todos “loucos” por esta trilogia ( paz, harmonia e felicidade ) seria uma conquista e tanto. Seria?
Convenhamos, que se nos fartássemos de tais iguarias em tamanha proporção estaríamos fadados à indigestão, tamanho peso no estômago e que antiácido algum daria jeito.
A escolha sensata é a de sempre saborearmos desses doces sentimentos enumerados, em porções balanceadas e, se possível, mescladas com amargos sabores (Dor, Tristeza e Saudade) o que torna a refeição – digamos assim – agridoce.
Se pensarmos bem, concluiremos que a vida nos oferece um banquete de cardápio variado. Só nos resta optar pelo “prato” a ser digerido.
À cada dia, desde o café da manhã pesamos na balança do bom senso nossas decisões. Devemos observar com cautela, qual o caminho a seguir: ou renunciamos a um projeto tão sonhado ou persistimos nele até que se concretize.
Muitas vezes, por açodamento, procuramos o caminho mais curto, mas que nem sempre nos leva a lugar algum.
De outra feita, somos tomados por forte indecisão. É como que chegássemos a um self service; parássemos diante de variada gastronomia e nos indagamos: feijoada ou massa?...
No “bate e rebate” do cotidiano estamos para perder ou ganhar; lutar ou resignar; nos reprimir ou nos libertar.Não é esta a receita de um bem viver?
Há dias em que o choro nos lava a alma. Em contrapartida, há momentos em que o nosso riso em excesso revela uma falsa euforia.
Repetimos à exaustão: “Todos temos o direito de ir e vir”. Mas sabemos sempre quando ir ou quando vir?...
Será que avaliamos com precisão quando é a Razão ou o Coração que deve falar mais alto? ...
São estas indagações que dão tempero a nossa vida. Concordam?
Retomo ao devaneio do início da crônica: ter por inteiro a Paz, a Harmonia e a Felicidade.Pura ilusão! Elas nos são servidas em fatias!...
O interessante é nestes momentos cada um de nós: apaziguar o coração, harmonizar o espírito e se felicitar com os consagrados versos : “Felicidade...Esta árvore milagrosa que supomos/ arriada de dourados pomos/ existe sim,/ mas nós não a alcançamos/ porque está sempre onde a pomos/ e nunca pomos onde nós estamos”.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A menina no cinema


Walnize Carvalho

Foi só ela entrar no cinema para que se transformasse.
As cadeiras acolchoadas e aconchegantes (verdadeiro colo) e mais a trilha sonora a transportaram. Abrindo o saco de pipocas – pensou – sem disfarçar o sorriso: - Estou deixando lá fora a pessoa adulta que sou e me encontrando com a “minha” menina.
. Bem posicionada deixou que os olhos se fixassem na tela. Nem pestanejava. Colocava pipocas na boca com avidez e displicência deixando algumas caírem sobre seu colo.
Aos poucos, embalada pela magia da história, foi se distanciando de si mesma.
Era tempo de férias.Férias de julho. Havia crianças e jovens barulhentos à sua volta. Ela não os escutava. Também estava de férias: férias “daquela” que deixou lá fora.
Alguém pediu (pela terceira vez, talvez) licença para passar e sentar-se na mesma fileira.
- Hã!?..., pois não, pode passar! – respondeu de forma automática.
E por minutos se dispersou da cena e pensou “naquela” que ficou do outro lado da sala de projeção.
Suspirou. – Coitada, tão cheia de compromissos, tão cheia de contas a pagar, tão cheia de problemas para solucionar, tão submersa em ocupações e horários, tão... tão.... robotizada!
Em certas ocasiões tão cruel se olhando no espelho e questionando: - Já viu suas rugas na testa? – Reparou nos seus cabelos embranquiçados? – Poxa! Você engordou, heim!? E a mais terrível das provocações: - Não vê que você não é mais uma menina!...
Mexeu-se na poltrona e balbuciou: - Não! Aqui neste momento “ela” não irá me abater.
Tentou ver o filme. Mas de novo cenas legendadas passaram diante do seus olhos: “a outra” até tem certa razão, afinal, ser responsável, cumpridora de suas obrigações não é papel fácil de se representar.
Novamente o pensamento contraditório: mas tanta disciplina todo tempo? Todo dia? Toda vida? Definitivamente, não! – deixou escapar em voz semi-alta.
Afinal, ela precisa fugir um pouco dos compromissos; dar asas à imaginação; ser feliz sem hora marcada e, acima de tudo, eliminar a culpa. Assim, de repente, no meio da tarde estar no cinema desfrutando o direito de ser criança.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Eu não sei pra que que a gente cresce


Walnize Carvalho

Amanheci com estes versos de Ataulfo Alves batucando na cabeça.
E fiquei horas cantarolando porque gosto de “Meus tempos de criança” e também para contrapor ao som do bate-estaca que vinha de uma obra em frente à rua onde moro.
E de tanto repetir me dei conta de que o lamento de crescer é de perder a ingenuidade. E dia após dia, ela – a ingenuidade – nos é tirada.
Num giro de memória chego ao mês de julho de infâncias distantes. Era sinônimo de férias, descompromisso e encerramento de um ciclo. Hoje o tempo é um menino travesso que corre atrás de nós a nos alcançar os calcanhares sem, ao menos, nos dar a chance de pedir “mandrake”.
Quem diria que transformariam os heróis em quadrinhos Mônica e Cebolinha em adolescentes e matariam o Batman?
Somos a todo momento lembrados de nossas obrigações. As siglas IPTU, IPVA, IR, PIB, NET estouram aos nossos olhos brilhando mais do que os POW... POW dos fogos de artifício de festas juninas
Sinceramente, como esquecer a antiga delicadeza dos encontros fraternos, da troca espontânea de presentes tão contrastantes à atual comercialização de afetos, dissimulação de simpatias e a ânsia das pessoas que se obrigam a ser felizes a qualquer preço?...
Neste ping-pong entre passado e presente, por certo, vários paralelos seriam lembrados que, fatalmente, não caberiam neste espaço.
Prefiro estancar as lembranças ao mesmo tempo em que sou absorvida pelo silêncio da rua.
Olho pela janela e vejo que as máquinas silenciaram. Os operários interromperam a obra e fazem sua sesta.
Volto a mim mesma e encerro esta crônica – nostálgica, irônica e saudosista – com outro trecho da canção que diz: “Eu era feliz e não sabia..."