sexta-feira, 27 de maio de 2011

De lírios e sonhos

Walnize Carvalho


Sobre a mesa , a toalha branca acetinada. Bem ao centro, lírios brancos em jarra transparente.
Meu olhar perpassa o cristal e fixa na noiva que esbanja alegria posando para fotografias.
À sua volta – noivo, pais dos noivos e padrinhos – são o retrato fiel da felicidade.
Fico por ali em minha contemplação e vagos pensamentos.
Me vem ,primeiro, à mente as palavras de Jesus,no Evangelho segundo São Mateus: “Olhai os lírios do campo ; eles não trabalham nem tecem; no entanto eu vos digo: mesmo Salomão,em toda sua glória, não se vestiu como um deles”.
No segundo momento, reflito sobre a simbologia do branco: Paz, serenidade, clareza ,quietude, expressão de luz e do Bem.
Fazem eco em meus ouvidos as palavras proferidas ao pé do altar: “ hei de amar-te todos os dias de minha vida”.
Menos introspectiva , debruço sobre a plenitude do momento.
Constato que cerimônia de casamento é assim: momento de contrição, de emoção e também de descontração.
Todos os presentes acompanham e participam desde - os atores principais - (os noivos) como - os coadjuvantes- (os convidados) da magia reinante.
É como se estivéssemos protagonizando um verdadeiro conto de fadas.
O casal embarcado na carruagem da paixão, adornada de sonhos e desejos, passa pelo cortejo que reverencia e aplaude efusivamente.
Seguem-se os abraços, os votos de perene felicidade, os brindes regados a champanhe, os comes e bebes...
E quem ousa quebrar o encantamento e projetar o futuro , meditar sobre a prole, visualizar dificuldades , imaginar as etapas a serem vividas e vencidas?
Pouco importa ,neste momento, conjeturar qual das expressões irá vingar: “Felizes para sempre”, “Eterno enquanto dure” ou “Até que a morte os separe” ...O momento é do coração sobrepor a razão.Planejar o que virá é puro delírio!
O Amor - o dono da festa - carrega os noivos para o meio do salão.
Eles dançam, riem, rodopiam esquecidos dos que testemunham a bem aventurança.
Como esquecido também sobre um móvel,o buquê da noiva.De lírios brancos.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

No corre corre do dia a dia...


Sobras e faltas
Walnize Carvalho

Sobra vontade
Falta entusiasmo.

Sobra ideia
Falta palavra.

Sobra projeto
Falta realização.

Sobra riso
Falta alegria.

Sobra castelo
Falta areia.

E assim...
Vai-se largando pelo caminho
O que não se conseguiu juntar...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Esquisitice


Walnize Carvalho

Do Carmo passa por meu portão por volta das 11 horas de certa manhã. O sol abrasador se faz presente, mas a senhorinha está toda arrumada para o seu passeio, sem nem se dar conta do imenso calor. Pára e relata com a tradicional simplicidade o trajeto daquela manhã.
Convido-a para entrar. – Não, outro dia! – responde-me. E revela o seu prazer matinal: Irá ver “as modas”; rodar pelos shoppings e Bancos, onde (mesmo sem nada comprar e nenhuma transação bancária efetuar) desfrutará do ar refrigerado que estes ambientes possuem. Sentará em um dos bancos da agência dos Correios e ah! ... irá aos supermercados comparar preços.
Na sua esperteza-inocência não percebe o sorriso maroto que surge no canto dos meus lábios.
Conta sem pudor: - Adoro ter 60 anos!... Tenho passe-livre que me leva de ônibus a conhecer lugares e pessoas. E arremata transpirando felicidade: - Amanhã vou sair bem cedo de casa. Pretendo ir a São João da Barra. Pela janela da condução irei olhando a natureza e recebendo a brisa no rosto. Chegando lá, visitarei a terra natal de minha avó. À tardinha estarei de volta.
E completa, radiante:
- Soube que as copas das árvores da praça principal estão podadas. Ficaram uma beleza só!
Esquisitice ou felicidade? Qual o melhor título?!

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A menina do cacho dourado



Walnize Carvalho

A menina é loura. Tem um anel de cabelo no alto da cabeça: um cacho dourado.
Mora em uma casa grande, de janelas altas. Próxima à rua. Rua movimentada.
Suas tardes ( já que nas manhãs vai à escola) são passadas na janela, olhando os que passam na calçada.
Seu pai é alfaiate.
O ateliê fica no primeiro cômodo da casa, bem na face da rua.
Encostada à janela, encontra-se uma mesa alta. De alfaiataria. É nela, que a menina sobe para espiar a rua. E só o faz, quando o pai não está cortando tecidos, para a confecção de ternos de seus fregueses.
Sobre a mesa e pela janela alta ela vê o mundo: uma enorme vitrine. Nela perfilam pessoas, carros, animais...
E sonha...Sonha correr livre pela calçada, atravessar ruas, ir à esquina comprar balas.Mas, qual? Só acompanhada dos pais ou da professora, que mora na mesma rua e costuma levá-la a escola.
A menina na janela faz projetos: usar óculos, um deles. Pensou até em pedir à mãe para ajudá-la nas tarefas domésticas descascando cebolas. Quem sabe, com olhos vermelhos e lacrimejados conseguiria tal feito? Recebeu um “Não”.
No outro dia, passou pela calçada uma moça de braço fraturado e engessado. Fechou os
olhos e sonhou...Sonhou ter subido na goiabeira da casa da avó, que mora no interior.Desequilibrou e...tbum! ganhou o chão e o “braço postiço”.Acordou e parece ter ouvido da mãe:”meninas comportadas não sobem em árvores!”...
A menina segue em seu devaneio. Ela e a janela.
Agora observa as folhas, que caem das árvores. Embarca no vôo com elas e percorre calçadas, cidades, mundos!...
As pessoas passam. Acham graça do seu sorriso,seus trejeitos,seu canto.E exclamam:
-Olha, que garota bonitinha! Que bons modos! Ela tem um cacho dourado na cabeça!
A menina sorri. Desce da janela.
O caderno de matemática a espera no seu quarto.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Princesa de apartamento


Walnize Carvalho

“Era uma vez, em terras distantes, um pequeno reino cheio de paz, prosperidade e rico em lendas e tradições...” E segue a história extraída de um grosso livro de capa marrom e letras douradas.
A menininha que a tudo ouve e a tudo vê dá um salto do sofá e vai em busca do traje que a avó irá vesti-la.
Desta feita, enquanto assiste no DVD “Cinderela” – um dos mais belos contos de fada – a vestimenta lhe é cuidadosamente colocada: vestido azul de saias rodadas, luvas de cetim e (como não pode faltar) a coroa dourada na cabeça.
Entre rodopios e atenções às cenas de tevê, a bela princesa ri, gesticula e cantarola.
Seus olhinhos brilham enquanto aos poucos os de casa vão assumindo os papéis que ela determina: o rei, a rainha, a fada madrinha, o príncipe...
A um canto o cavalinho de pau parece que ensaia um galope enquanto a cadeira da sala de jantar está prestes a se transformar em uma suntuosa carruagem.
De repente, o apartamento do sexto andar se torna o mais luxuoso castelo, onde imaginários lustres e escadarias cobertas de tapetes vermelhos compõem o ambiente de pura magia.
Nem mesmo o som de uma freada brusca de carro na rua consegue suplantar a música encantada que ecoa no “palácio”: “Cinderela, Cinderela o seu nome é uma canção/ Cinderela deixa o coração voar/ E assim poderá realizar/ O seu sonho encantador...”
A princesa do apartamento (que hoje completa três anos) reina em seu mundo à parte.
Por alguns minutos senta-se e emudece.
Fixa o olhar nas cenas que se sucedem: meia-noite. A princesa desce correndo as escadarias. A perda do sapatinho de cristal. A abóbora. As vestes rotas. O encanto desfeito.
A campainha toca.
A menininha cheia de entusiasmo grita: - É o príncipe! E abraçando o pai (que traz nas mãos uma caixinha de presente) lança a pergunta: - Você trouxe o sapatinho de cristal?
Risos. Afagos.
Na tela da tevê a cena final: a carruagem segue levando o príncipe e princesa...
... “E foram felizes para sempre”.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Novamente



Walnize Carvalho

O Valor das Palavras
O enorme valor do prefixo RE.
Em tempo de RESSURREIÇÃO, vale REFLETIR. Que tal?

REcitar um poema?
REdescobrir um caminho?
REatar uma amizade?
REver um amigo?

REalçar um sorriso?
REacender uma paixão?
REcontar uma história?
REconquistar um afeto?

REpensar a solidão?
REler um bom livro?
REciclar uma idéia?
RElembrar a infância?

REfazer um trajeto?
REtribuir um gesto?
REaprender com o idoso?
REviver uma emoção?

REencontrar a si mesmo...

“REinventar a VIDA?”

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Busca


Walnize


Eu busco um sorriso

Sorriso puro

Que não seja um riso só.

Eu busco um canto

Um canto igual Canto de paz.

Eu busco no Tempo

meu tempo Sem tempo de voltar.

Eu busco um olhar

Olhar criança

Olhar esperança.

Eu busco o AMOR

O Igual

A Paz

E muito mais!

Eu busco um céu

Onde brilhem estrelas

De todas as cores De todas as luzes

De todas as raças

E que reunidas

Só tenha o tom:

IGUALDADE.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Desarmamento


Walnize Carvalho

No bangue-bangue da Vida/ é preciso .../ desarmar corações empedernidos/ combater conceitos preconcebidos/ distribuir balas de puro mel/ limpar da boca amargo fel/ desconsiderar algo sem relevância/ desatar nós de ignorância/ cultuar a fraternidade/ defender a liberdade/ desfraldar sorrisos ao vento/ viver o fugaz momento/ decorar um poema bonito/ desprender de enfadonho rito/ desmistificar que é “dono da verdade”/ soltar “a criança” em qualquer idade/ reverenciar o sonhador/ acreditar no Amor/ desenraizar a amargura/ exercitar a ternura/ conservar a calma/ desenferrujar a alma ...
E
armar-se de boa dose de ânimo/ para enfrentar a batalha do cotidiano.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

"Primeiro de abril- seu pai caiu, sua mãe não viu!"


Walnize Carvalho

Já vai de longa data (e bota tempo nisso) que o Primeiro de Abril é considerado o dia da Mentira.
Sempre fui sabedora de que se trata de um dia em que se prega uma peça em alguém a título de gracejo.
Em minha memória cinqüentona há registros e registros de brincadeiras que eu fazia e que faziam comigo nesta data,( "hoje não tem aula"; "Seu zé da venda está distribuindo balas":"mamãe tá te chamando!"... ) sempre arrematadas pela seqüência de palavras: “Primeiro de Abril – seu pai caiu, sua mãe não viu”.
Os tempos mudaram e a data transformou em um acabar sem fim de relatos inofensivos, outros maldosos, que vão desde convites para casamento de pessoas que nem se conhecem, convocações para falsas reuniões, como as pregadas na imprensa nacional e mundial a título de confundir a opinião pública.
Prefiro deter-me em “pegadinhas” com sabor de descontração, mas sabendo que manifestações folclóricas serão sempre eternizadas no mundo inteiro.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Gata Borralheira às avessas


Walnize Carvalho
Abriu os olhos para o dia e diante deles passou um letreiro luminoso: A VIDA É UM TEATRO.
Enquanto caminhava para a mesa do café da manhã, a mulher se dava a filosofar ... A vida é um teatro ... Mais do que sinônimo de representação cênica, mundo ilusório, vida fictícia, o que não é o teatro senão a própria vida encenada no palco?
Nele temos vários papéis a desempenhar no dia-a-dia. E, se possível, com prazer e autenticidade – meditava.
Naquela manhã de outono, com ares de verão, sentiu que começara bem o seu dia.
A mulher se deu a tarefa de remexer guardados, faxinar cantos, cuidar de forma mais ordenada dos afazeres domésticos.
Seguia, distraída, com música suave a lhe fazer companhia, desempenhando o referido papel. Papel este que não exigia da “atriz” nenhum ensaio e nem texto bem estudado. Bastava apenas disponibilidade, energia e disciplina.
E com a atividade quase por cumprir lembrou-se que estava atrasada para um compromisso.
Trocou apressadamente de roupa e saiu à rua.
Corria pelo caminho, levada pela brisa da manhã deslizando lépida e feliz por entre carros, pessoas, árvores e calçadas.
Como em um conto de fadas, em sua mente havia um relógio imaginário que a qualquer momento iria “badalar as doze horas, fazê-la perder o sapatinho de cristal nas escadarias e transformá-la em outro figurante” ...
Assim, a mulher, cheia de encantamento e alegria chegou a tempo de participar de mais um encontro literário e desempenhar no “teatro da vida”, mais um personagem: o de POETA.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Jogos da vida



Walnize Carvalho

“Jogando e aprendendo a jogar/nem sempre ganhando/nem sempre perdendo/mas aprendendo a jogar!...”

Nos jogos da vida
baralhar
escolher
arriscar
recuar
ir em frente
dar um passo atrás
lutar
resignar
aceitar
chorar
rir
renunciar
aprisionar
libertar.
Jogar com determinação.
Manejar
com destreza as adversidades.
Sentir firmeza nas decisões tomadas.
Evitar a qualquer preço
fazer ping pong dos sentimentos alheios.
Não promover “quebra de braço” entre egos inflados.
Na hora do xeque-mate
esquecer vencedor e vencido.
Nas batalhas do dia a dia
munir-se de muito jogo de cintura.
Na vitória
ou nas derrota
se certificar de ter jogado limpo.
Estar consciente
que o exercício de viver o livre arbítrio é peça chave que nos move.
E assim...
conseguimos
expressar
aprender
ensinar
e descobrir que
a coragem
é a carta que trazemos na manga do paletó.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Ressaca


Walnize Carvalho

Hic! Um soluço interminável, um peso enorme na cabeça (como se pousasse sobre ela um elefante), um gosto amargo na boca – gosto de cabo de guarda-chuva, dizem alguns -, náusea, mal estar, “estômago embrulhado” e o olhar distante fixado em lugar algum.
Sabem de quem estou falando? Da famosa ressaca que, principalmente, nos últimos dias (dias que sucedem ao carnaval) a muitos abate.
Estranhamente reconheço que tenho quase todos os sintomas citados, embora não ingira bebida alcoólica nem tão pouco tenha participado da festa.
Sou tomada de uma leve prostração, de desalento, de incômodo, e com o olhar distante fixado em lugar algum constato que também estou de ressaca, mas de uma ressaca atípica. Sinto no ar o esgotamento de valores duradouros e autênticos, uma falsa euforia, uma vontade de que a fantasia não desbote e a que máscara fixe no rosto e não descole tão cedo.
Há o cansaço do “ser eu mesmo” e o desejo de que o personagem construído assuma o papel principal.
Neste estado letárgico não há receitas caseiras do tipo: muita água de coco, sal de frutas, banho de mar e até os conselhos de “tomar mais uma”, um engov antes outro depois que irão modificar o quadro. E nem tão pouco a ressaca não alcoólica (que é o meu sintoma) vá se desfazer com vãs filosofias.
No mais, é esperar que ela se dilua por si mesma. E que ao fim de alguns dias se possa abrir o armário, pendurar a fantasia e buscar vestimentas adornadas de bom senso, otimismo, sobriedade e esperança.
Assim vestida, finalmente, dar início à caminhada do ano novo que nos espera.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Outros Carnavais


Walnize Carvalho .

Nesta crônica de hoje vou embarcar no saudosismo...Saudosismo sim! E por que não?
Temos tendência a rotular de saudosista a pessoa velha, ultrapassada, insatisfeita ( quase sempre com o presente) e que insiste em querer viver no passado.
E há quem diga até que “quem vive do passado é museu”...
Creio que (retomando a idéia inicial) saudoso é quem denota saudade e – convenhamos – que privilégio ser tomado por este sentimento (saudade) que, além de ser um belo estado de espírito, é palavra que só existe na língua portuguesa!...
Mas, vamos lá!
Hoje é tempo de carnaval. Com ou sem fantasia ; animado ou indiferente não há como deixar de saber notícias dele...
Em tempo de boas lembranças me vêm à mente outros carnavais: os que vivi e os que ouvi contar... Tempo de corso nas ruas, fantasias, blocos, cordões, clubes sociais apinhados de pessoas descontraídas e felizes.(será que alguém se lembra – como eu - da expressão “tríduo momesco”?)
Em idos de 58 ( pesquisei no ‘ Campos depois do Centenário “ vol. 2 – Waldir Carvalho) consta que : “ Na segunda feira gorda desfilaram os blocos “ Felisminda minha Nega “ , “ O Prazer das Morenas “ como os ranchos “As Magnólias “ e “ Chuveiro de Prata“ .A animação dos bailes ficava por conta dos Plutões , Saldanha e Automóvel Clube Na boca de todos, em qualquer canto da cidade (nos clubes ou nas ruas) as marchas-rancho se tornavam hino.
A cada ano ,com tempo de antecedência aprendíamos as músicas que seriam tocadas e cantadas a exaustão.Exaustão? E quem demonstrava cansaço, ainda que ele se fizesse presente?
Quantas gerações conhecem e cantam até os nossos dias: “Bandeira branca”, “Jardineira”, “Cabeleira do Zezé”, “Colombina”, “Mamãe eu quero” e tantos outros sucessos!
É prova inconteste que o que é bom perpetua e feliz de quem não tem culpa de gostar do que é bom!
Havia no ar uma expectativa com a chegada do carnaval desde a compra de fantasias a ingressos para os bailes nos clubes, como também gerava ansiedade poder ir às ruas ver ou participar dos desfiles populares.
Tudo girava em torno da alegria garantida nos “três dias de folia”.
E quando estes chegavam... não havia quem não fizesse valer os versos da canção: “Deixei a tristeza lá fora/ mandei a saudade esperar/ hoje eu não quero sofrer/ quem quiser que sofra em meu lugar”.
Mas... sem nostalgia: são outros carnavais!

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Cumplicidade



Walnize Carvalho

É um período de diários encontros.É tempo de férias.
E assim... ao cair da tarde, o prazeroso ritual se repete: Três grandes amigas passam juntas, horas agradáveis.Duas delas, se dirigem à casa da terceira, que ao pressentir a chegada das primeiras, logo avisa com voz de alegria e ansiedade: - Arrumem as cadeiras da varanda...E - enfatiza - ... no lado da fresca, que já estou indo!
Minutos depois a dona da casa aparece trazendo nos braços e mãos (quanta habilidade!) variadas guloseimas, (potes de biscoitinhos sortidos, bolo de aipim, broas de milho e até doce de jenipapo!) para o lanche da tarde.Ajeita-os sobre a mesa e retorna com líquidos variados (leite, suco de caju e café coado na hora). Tudo por ela organizado é hora da saudação às “visitas” que é feita de abraços e beijos fraternos.Quem assiste de fora (caso passe alguém pela rua) pensa que se trata de reencontro de pessoas queridas, que de há muito não se vêem.Ledo engano!A afetividade é repetida diuturnamente.
Regado a tudo isso, a conversa que rola solta e descontraída. Trocam experiências, fazem confidências. Falam de assuntos domésticos, do tempo, de novela, de moda, dos modos, das novidades, dos acontecimentos, de culinária, da vida vivida, de fatos que a memória insiste em lembrar, dos filhos, dos netos e...dos netos!
E como entre elas, há o pacto legitimado pelas alianças do sangue, toda a “troca de ideias” é cercada de autenticidade e sinceridade. Há um forte comprometimento com as marcas da origem (a criação que tiveram, os valores adquiridos...) fazendo com que o eixo central do bate papo seja a família.
Dia desses uma delas se lembrou da frase primorosa da escritora Rachel de Queiroz: ”Famílias, a Natureza as faz, mas a gente as arruma ou organiza”, o que fez rolar uma lágrima furtiva dos olhos da outra, denotando melancolia.Silêncio.A terceira, quebrando o clima saiu-se com essa: -Tem gente aí que prometeu parar de pintar os cabelos aos cinquenta...e já está a caminho dos sessenta e até agora nada!...
Gargalhada geral!
E tem sido assim: Uma fala, outra escuta e mais outra retruca... E porque não há compromisso com o correr das horas, afinal - férias são férias - debruçam-se em lembranças felizes, que vão desde a infância ,em que dormiam cada uma em sua caminha . Assim, recorda uma delas, que a mãe as abençoava e saía do quarto, tratavam de juntá-las, para que a mais velha das três contasse historinhas...
Em seguida, aportam na juventude e em meio a risos nervosos falam dos bailes no Clube, bailes estes acompanhados dos pais .Uma delas se lembra de que quando o pai se postava de pé era a senha: hora de ir embora.E ela, pensando ganhar mais alguns minutos se escondia no vestiário! Que ilusão!...
Anoitece. Todas se lembram que é hora de retornarem aos seus hábitos individuais. Despedem-se. Duas seguem para suas respectivas casas. A que fica chega ao portão e grita:- Amanhã à tarde,tem doce de carambola com queijo da roça!...
(dedico esta crônica às queridas irmãs –Zedir e Zalnir - que neste fevereiro(21) e (25) respectivamente, aniversariam.)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Descoberta




Walnize Carvalho

Cobria os olhos
Com óculos escuros
- precisava mascarar.

Escondia os braços
Com traje abotoado
- necessitava ocultar.

Tingia os cabelos
Com tons dourados
- desejava disfarçar.

Vestia todo o corpo
Com túnica longa.
- queria camuflar.

Mas...
A mão despida,
Com caneta ágil nos dedos,
obedeceu
ordens interiores.

E o coração pulsando
A mente impulsionando
Não pude mais dissimular.

A Poesia
Desnudou
A minha alma.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Bizarro


Walnize Carvalho

Quando ela se anunciava (e final de semana geralmente era quando a “danada” a pegava de jeito) sai de baixo ... Do Carmo ficava impossível e com um estranho desejo.
Era a vontade de sentir Tristeza. E tinha que ter tristeza para justificar a tristeza.
Arranjava um grande motivo para deixá-la chegar ... e ficar.
E assim, lenço na cabeça, avental, pano de chão, balde e vassoura se dava a faxinar a casa. Para ela uma sensação ambígua de humilhação e glória. Suor pela face, joelhos no chão, limpava canto por canto. Verdadeiro auto flagelo.
Olhava as unhas pintadas na sexta-feira já totalmente destruídas. A escova progressiva já dava sinais de ter que ser refeita (gastara um bom dinheiro).
Respiração ofegante, coração exultante.
Como estava só em casa aproveitava para ouvir os velhos sucessos musicais do tipo “Ninguém me ama; ninguém me quer”. Cantarolava ... E bem lá no fundo de seu ouvido o refrão da “Escrava Isaura” fazia ressonância: “lerê, lerê, lerêlerêlerêlerêêê”...
Afinal, movida de tamanha felicidade de ter conseguido o seu intento – sentir Tristeza - jogava-se na poltrona (após banho tomado), fechava as cortinas da sala e começava a chorar, gargalhar, soluçar.
Vencida pelo cansaço, dormia abraçada à “visita” como um anjo sem culpa.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Foto mensagem



Na manhã ensolarada o matinho verde se esparrama sobre a areia como a banhar-se dos raios solares...

sábado, 29 de janeiro de 2011

Mergulhos no mar da memória


Walnize Carvalho

Verão de infância distante.
A cena aparece límpida perante meus olhos : eu, primos e irmãs ( após café da manhã) trocávamos rapidamente os trajes de dormir pelos de banho de mar.E nem consultávamos o tempo! O importante era não perder tempo...embora ficássemos de guarda até que um adulto chegasse (ou melhor apontasse na esquina) para que –enfileirados- tal atletas em competição, corrêssemos para nados e mergulhos.E não havia disputa e nem espera de medalhas...Éramos,tão somente ,crianças felizes e despreocupadas curtindo férias na praia do Farol de São Tomé.
Com chuva ou com sol (de preferência por dias ensolarados, para que os adultos –os tomadores de conta- ficassem menos extenuados ) lá estávamos nós, no nosso “compromisso” diário.
E ficava difícil - mães e tias - conterem a fúria (não do mar bravio) mas de nosso impulsivo destemor naquelas horas de genuína felicidade.
Sob as barracas, (em cadeiras ou esteirinhas) os adultos admiravam o balé quase que sincronizado da criançada. Os meninos davam braçadas, “pegavam jacaré” com os braços esticados (ainda não existiam pranchas), deslizavam em meio as ondas indo até à beira mar, o que fazia com que muitas vezes “atropelassem” os que por ali estavam . Já as meninas se esmeravam em mergulhos e mais mergulhos...o que fez com que eu recebesse o título de “tainha”(tainha - um peixinho- não confundir com rainha ) do saudoso tio Zé...
A saída das águas só se dava após insistentes acenos e gritos dos mais velhos ou quando eles entravam no mar e exigiam nossa retirada.
Em tempos atuais tenho pelo mar (principalmente, o da praia campista e lugar escolhido de férias das netas) admiração e respeito. Gosto de postar-me à sua frente e meditar. É como estivesse em um santuário a ouvir cantos gregorianos que são substituídos pela melodia do bater de suas ondas.
Perante gigantesca beleza extraio lições de sabedoria para um viver harmonioso: ora mergulho fundo em busca de soluções para os desafios; ora mergulho raso quando assumo minhas limitações.
Embarco, para melhor definição, nos versos da canção: “A vida vem em ondas, como o mar /num indo e vindo infinitos” .

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Farol de muitos faróis


Walnize Carvalho
Gosto de estar por aqui neste exílio voluntário, pés no chão, despojada, encontro diário comigo mesma. Caminhar na hora do sol nascente por entre as alas de casuarinas sentindo a brisa matinal.
Ir à beira-mar, pisar na areia úmida, catar conchinhas (ainda que escassas) e sentir a maresia lamber-me a face.
Ver, ao longe, barcos no porto. Alguns de pintura nova, nomes gravados no dorso e outros já cansados, emborcados e envelhecidos pelo tempo.
Seguir em frente e observar algumas casas com telhados à mostra, enormes varandas, flores no muro espiando a rua. Em seus quintais, galinhas e pintos ciscando a terra.
Sentar-me, tomar água de coco, ver passar antigos e novos moradores. Padeiro de bicicleta, caminhão vendendo redes, kombi com legumes e frutas, o menino do picolé: - Cremoso!! É da Boa Vista!...
Ao meio-dia ir a algum dos quioques enfileirados na calçada paralela ao mar e saborear peixes e camarões fritos na hora acompanhados do largo sorriso dos que estão ali prontos a servir os visitantes.
Fazer a sesta, ler um bom livro na rede ao som de música suave.
À tardinha passear pelo Calçadão, assistir ao vôlei enquanto pessoas sentadas nos bancos ficam por ali, conversando.
Olhar em direção ao mar e ver meninos soltando pipas, moços com pranchas e senhores com redes de pescar lançando-as nas ondas bravias.
Quando a noite chega, admirar o velho Farol – timoneiro dos navegantes – e símbolo deste aprazível balneário derramar seus raios como a abençoar moradores e veranistas.
Fitar o céu salpicado de estrelas.
E em contrição com a Natureza, recolher-me, dormir e sonhar.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Ilhada no shopping



Walnize Carvalho

Estava , a mulher, naquela tarde de sábado lendo jornais.
Deu uma espreguiçada e levantou-se.
Olhou pela janela do apartamento e viu a romaria que passava rumo ao shopping .
Decidiu juntar-se aos mortais (a tarde ensolarada era um convite) e para lá seguiu também.
Entre espiar vitrines, ver pessoas, tomar sorvete e refrescar-se pelos corredores ( ar refrigerado em alta voltagem) nem viu o tempo passar.
De repente,se deu conta de que chovia lá fora.Chuva de fins de tarde em dias de verão.
Dirigiu-se até a saída .Ela e a multidão.
A cena presenciada por todos era desalentadora : ruas às escuras,alagadas.Correnteza.Rios de lama...e a constatação: estava ilhada.Ilhada em um shopping..
Alguns “sobreviventes” acionavam seus celulares enquanto outros, como ela, resolveram evadir o local.
Saiu.Atravessou as ruas rezando para escapar dos ralos entupidos por dejetos da “civilização”.
Chegou sã e salva ao apartamento.
Aliviada ,de corpo e alma lavados, suspirou: _Porto seguro! Enquanto subia ofegante os seis andares de escada.Faltava luz no prédio...

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Mormaço


Mormaço
Walnize Carvalho

Quando o Amor passa é como um dia de Mormaço.Você se distrai.Esquece o chapéu,o protetor solar.
A brisa é fresca... a manhã é bela ...você se deixa envolver.Só percebe ao fim do dia
o corpo febril, tatuado, intocável...
Abre a janela e pede a brisa da noite que sopre por sua pele nua e suavize
o ardor da Paixão.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Velha Companheira


Walnize Carvalho

Com o término do ano preparo-me para a sua despedida. E, confesso, já estou com saudades dela.
Olho-a com ares de ternura e uma certa melancolia me invade.
Vejo o seu jeito cansado, desgastado, amarrotado pelo tempo – afinal, um ano se passou – e ela ali, firme, guerreira, acima de tudo, velha companheira.
Sem ser volúvel (mas é necessário que assim o faça) irei substituí-la por outra. É o ciclo da vida.
Com ela, nestes doze meses, dividi tristezas e alegrias.
Arquitetei planos.
Realizei sonhos.
Deixei em sua face sinais de lágrimas e até marcas de batom.
Impregnei-a de frases lidas, ouvidas e até criadas por mim.
Empenhei com ela (em vão) a sentença de que “não se deixe para amanhã o que pode fazer hoje”. Mas, muitas vezes, dada às circunstâncias coisas ficaram para... depois de amanhã.
Ela, compreensiva e silenciosa, sempre entendia os meus anseios.
Minhas frustrações? Passei-lhe todas.
Derramei sobre seus ombros várias emoções vividas e ela as recebia com entusiasmo.
A simbiose afetiva transcorria de forma envolvente e profunda.
Verdadeira entrega.
Como autêntica arquivista documentou tudo o que eu lhe passava sem contestação.
Agora, aqui fico a admirá-la e esquecida de mim leio em seu semblante minha história desenhada.
Revejo no tempo o meu aprendizado e constato que foi enriquecedor estar em sua companhia.
Ela está de partida. Cansada, mas com sentimento do dever cumprido, pois mais do que companheira foi minha cúmplice.
Agüentou, serenamente, confissões e desabafos.
Com o término do ano preparo-me para despedir-me da minha AGENDA .
Uma amiga? Uma companheira? Tudo isso. Mas, acima de tudo, a reprodução de mim mesma.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

E chegou o Natal...



Aproveito o desenho da neta Valentina - as crianças e sua inocência nos renovam - para desejar a amiga Ana e aos que passam os olhos pelas minhas postagens uma Noite feliz!

Para sempre Papai Noel


Walnize Carvalho
(da lembrança do meu pai)

A menina entreabre os olhos.
Vê que vem do cômodo ao lado de seu quarto, uma luminosidade.É manhãzinha. Olha para o lado. Suas irmãs estão dormindo nas caminhas enfileiradas.
Levante-se, sorrateiramente, e vai ate aonde a luz chama. La está ele –seu pai- os apetrechos de barbear :bacia, pincel, espuma, gilete.
Prepara a espuma e desenha no rosto a barba – barba de Papai Noel.
A menina chega. Debruça-se sobre o parapeito da pia e fica a admirar aquele que tantos anos repete o ritual e transforma no seu herói preferido.
Espuma branca ... lembrança pura.
A mulher entreabre os olhos.
Sai á rua na manhãzinha. Passa por uma barbearia.Espia um senhor sentado,toalha no pescoço,cabeça recostada.
O barbeiro prepara o rosto dele. Mesmos apetrechos de barbear. Mesmas lembranças.
Modela naquele rosto cansado a barba de espuma branca.
O Papai Noel volta a bailar na mente daquela mulher.
O momento é mágico e por segundos uma nuvem de paz envolve o ambiente.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Para Ana Paula


"Eu encheria de estrelas
uma cesta bem grande,
se pudesse colhê-las...

Escolheria com carinho
e o máximo cuidado
(será que elas se apagam
ou se quebram?!...)
as mais brilhantes,
as que ficam mais perto
do trono azul de Deus...

Depois, iria à sua casa,
toda cheia de brilhos,
como a primeira distribuidora de estrelas,
de estrelas vivas e genuínas!

E, num arranjo cuidadoso
de decorador diplomado
deixaria seu quarto
ou,se prefere, a sua sala
igual a um grande céu
tendo o maior cuidado
de fazer de tal modo o meu arranjo,
que ficasse
bem claro e definitivo.

Depois, me esconderia
atrás da cortina
a fim de ver e curtir
aquele brilho nos seus olhos,
ao descobrir o meu presente:
-o céu trazido assim
pra dentro do meu quarto!

Mas...
que adianta sonhar?
Estrelas são estrelas
e nunca poderão baixar à terra...


No entanto,Amiga,
se você
olhar hoje à noite, pela janela
eu juro, que verá
algumas estrelinhas
piscando pra você
como a dizerem:
"Uma ave me contou que hoje é seu dia!
Meus parabéns!
FELIZ ANIVERSÁRIO!"