sexta-feira, 6 de abril de 2012

Muito além de coelhos e ovos

Muito além de coelhos e ovos

                    Walnize Carvalho
            Quer cena mais recheada de ternura do que ir ao encontro da netinha na saída da escola e vê-la correr para os seus braços vestida de coelhinho? Nas mãos, um enorme ovo embrulhado em papel lustroso; no olhar, um brilho de alegria e,de quebra,saltitando e cantando:”De olhos vermelhos/ De pelo branquinho/de pulo bem leve/ eu sou coelhinho...
Tudo de fato  muito singelo, pois naquele momento- involuntariamente-  ela está representando  dois elementos significativos da Páscoa: o coelho(fertilidade) e o ovo (renascimento) .Em sua santa ingenuidade , tudo tem sabor de festa!
Mas, no retorno para casa, ela me surpreende quando conta (cheia de expressividade mesclada com espanto)  o que lhe foi ensinado sobre a Semana Santa: “Os homens maus prenderam Jesus na cruz...mas ele ressuscitou!...”
Em mim, ressuscitam vagos pensamentos de  Páscoas distantes: rezas, jejuns, santos cobertos com panos roxos, visitas à casa da madrinha, malhação de Judas e...ovos e coelhos.
Sou levada a refletir sobre esta Celebração. É,sem dúvida,  o momento mais importante da religião cristã.Coincidentemente, neste 2010, católicos, protestantes e ortodoxos(li sobre isso) comemoram na mesma data a Boa Nova.
  E, novamente, reacendem em minha mente expressões agregadas à esta tradição milenar: Paixão de Cristo,Vigília Pascal, Sábado de Aleluia, Domingo de Ramos,Quaresma,abstinência, morte, ressurreição e vida.
 E festejando  a Vida,  nada melhor do que embrulhar num só pacote: renovação de valores, redescoberta de novos caminhos, reconquista de antigas amizades, refreamento de consumismo,   reciclagem de ideias, relembranças de  tempos felizes, retribuição de gestos fraternos, reaprendizagem com os mais idosos , releitura de bons livros...
Estes aconselhamentos (que mais beiram a reflexões pessoais) não detonam   ser pragmatismo de minha parte. Não expressam o sentido de desconstruir a simbologia da Páscoa .
         Ademais,  buscar um  lugar de lazer para curtir o feriado  ( de preferência, saboreando chocolates) é prazeroso. O que não impede de se ir ao reencontro de si mesmo e de se criar a oportunidade de  reinventar a vida!...


sexta-feira, 30 de março de 2012

A solitária arte de comunicação

A solitária arte de se comunicar

Walnize Carvalho

Tarde de domingo.
Trancada em meu quarto leio atentamente no jornal a matéria sobre uma pesquisa que enfoca a vasta e inédita correspondência entre o sociólogo Gilberto Freyre e o escritor José Lins do Rego. Já em outra página chama-me a atenção a publicação de um livro em que estão reunidas cartas do grande escritor brasileiro Machado de Assis quando... Toc!Toc! Toc! As batidas na porta interrompem minha leitura.
A neta, que acabara de chegar, comunica que irá usar o computador. Tento segurá-la um pouco e puxando conversa pergunto-lhe: - Não vai ao cinema, nem ao shopping? E ela: - Vou no MSN! E eu, demonstrando conhecimento: - Vai bater papo com as amigas? – Sim, vó! – responde-me. E eu, demonstrando interesse no mundo virtual, recebo dela uma enxurrada de informações: MSN, Orkut, Skype, WebCam – as mais variadas formas de comunicação.
A adolescente sai deixando a porta entreaberta o que dá para que eu ouça o Plim do seu celular e, em seguida... Tec! Tec! Tec! Sinalizando que acabara de receber um torpedo e está retribuindo.
E retornando à internet leva um bom tempo (talvez hora e meia) conectando “seus amigos em comum e comunidades”.
E não sei se é por causa das matérias sobre correspondências, ou se é pelo  Outono (tida como estação melancólica) sou invadida pelos meus “ismos”: saudosismo e romantismo (e olha que já nutro até certa simpatia e amizade pelo meu computador).
Mas... lembro-me do hábito salutar de escrever e responder cartas. A ida aos Correios. Selo. Cola. E depois... A espera do carteiro. O abrir apressado do envelope e o reconhecimento da autoria através da letra desenhada.
Recordo-me do relato dos mais saudosistas sobre cartas em papel cor de rosa ou em folhas de seda. Muitas com leve fragrância de perfume, algumas com pétalas de rosa e até as que traziam marcas indeléveis de batom (vermelho carmim) impregnadas de paixão.  Todo um ritual de comunhão e sutileza.
Anoitece.
Pela fresta da porta a luz azulada da tela do computador reflete o rosto da menina.
Eu – a meu canto – encerro o domingo assistindo em DVD  “O Carteiro e o Poeta”.

sábado, 24 de março de 2012

Eu e elas


Walnize Carvalho
Lembro-me bem, com que carinho, falei sobre elas : “As meninas circulam meu dia- a - dia. Jogam-me na roda, no centro da roda, na berlinda. A romântica puxa-me pela saia, quer que abre gavetas, escreva emoção sentida em qualquer folha de papel.A vaidosa coloca-me frente ao espelho,quer me ver bem - olhos brilhantes - batom bem retocado nos lábios .A organizada olha o relógio, ajeita a roupa, combina cores de calçado e blusa ,vai à luta cumprir jornada e é a mesma que chega comigo ao lar e insiste em brincar de “casinha”.A desprendida (cabelos ao vento) corre lépida para ver o mar, o luar,ou alguém para falar...agitada deixa-me quase sem ar! Mas, há a menina assustada, que vez por outra vem visitar-me na calada da noite...se achega de mansinho, pede-me colo e uma historinha que a faça dormir...E assim, brincando com elas de “bem-me-quer e mal-me-quer” encontro no dia-a-dia minha essência de Mulher!...”
E, de repente, dia desses percebo o desassossego .A um canto as cinco meninas cochichavam dando-me a nítida impressão que falavam a meu respeito.
Aproximaram-se de mim e novamente colocaram-me na berlinda.A desprendida tomando as dores das outras,iniciou as reivindicações: -Não somos mais crianças! Queremos liberdade!Eu, por exemplo, estou entediada! Você - apontou-me- só quer saber de viagens virtuais! De vez em quando,vamos a um cineminha com a condição de que eu fique com modos de menina comportada. Não me leva para ver o mar, o luar ...
Foi a deixa para que a vaidosa entrasse em campo:-Para onde foram nossas idas constantes ao salão de beleza, às compras nos shoppings?
Bastou para que a organizada se manifestasse : -Aposentou se do trabalho e da vida social também? Até as nossas brincadeiras de “casinha” se tornaram enfadonhas de tão rotineiras!
A assustada começou a cantarolar: “Eu perdi o medo/o medo da chuva!...” E acrescentou,com ares de superioridade: -Nada como um bom livro de cabeceira para me levar ao sono!
Sem ação e sem resposta fiquei por ali, pensativa, durante alguns minutos.
Levantei-me da cadeira e me preparava para uma ducha fria, quando alguém enlaçando-me pelo pescoço sussurrou aos meus ouvidos: - Quero que fique tudo como está! Serei sempre sua companheira!

quarta-feira, 14 de março de 2012

Da delícia de ser... poeta



(pelo Dia Nacional da Poesia)

Walnize Carvalho


Poeta tem idade?
tem cor?
tem sexo?
Poeta não “precisa ficar bem na foto”
Poeta é porta-voz da dor do mundo
e da alegria das “gentes” ...
Poeta é atemporal.
Não precisa de solidão
para ser sozinho ...
Poeta não tem país, fronteira e nem divisa.
Poeta é como abelha,
traz consigo
o favo de Criar ...
Poeta escreve
para livrar-se do que sente.
Poeta não erra,
falha.
Poeta não mente,
inventa o inexistente ...
Poeta é
acima de tudo,
um LOUCO FELIZ.

sábado, 10 de março de 2012

Oscar de melhor curta de animação é uma homenagem à leitura

O filme The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore ganhou o Oscar de melhor curta de animação na premiação que aconteceu no último dia 26 de fevereiro. O filme é uma homenagem ao mundo da leitura, singelo e emocionante.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Ah! Nós, mulheres!...


Walnize Carvalho

Hoje é o nosso dia.
— HOJE É O NOSSO DIA! — bradam umas com visível entusiasmo.
— Hã?... Hoje é o nosso dia? Que dia? — balbuciam outras com natural desânimo.
E assim, eufóricas ou melancólicas vamos vivendo nossa condição feminina.
De tão observadas merecemos rótulos: vitoriosas, guerreiras, apáticas, pragmáticas, divertidas, mal-humoradas, antenadas, autocentradas, extrovertidas, introspectivas, peruas, simplesinhas, princesas, bruxinhas, temperamentais, “as que amam demais”... e sofrem.
Sofremos de TPM (que também pode ser traduzido por as que resolvem Todo Problema do Mundo).
Vivemos intensamente 25 horas por dia: correndo, ao volante, frente ao computador, falando ao celular... Em casa, na rua, no trabalho, nosso radar está sempre ligado.
Travamos lutas diariamente com dois inimigos mortais: o espelho e a balança.
Somos chiques. Damos choques e chiliques.
Nossos sonhos de consumo vão desde ver “o filho encaminhado na vida” ao saber caminhar elegantemente num salto sete e meio ao estilo Gisele Bündchen.
Furiosas, descemos do salto, subimos nas tamancas.
Serenas, levitamos qual borboletas em torno da flor.
Radicais. Ora estamos para brilhar, ora para dar brilho, pois com a mesma elegância manuseamos canetas, pincéis e vassouras.
Poderosas, nos transformamos em Mulher Gato.
Ensimesmadas, aquietamos num canto tal qual Gata Borralheira.
Donas do próprio nariz, às vezes, quebramos a cara com atitudes unilaterais.
Habitam em nosso ser múltiplas meninas: a romântica, a vaidosa, a organizada, a desprendida, a assustada que de mãos dadas nos transformam na mulher que somos.
E somos movidas a projetos que vão desde o mais sério ao mais fugaz: morar num triplex, possuir uma Hillux, aplicar botox... Mas o xis da questão é quando projetamos nossa felicidade no outro e o usamos como muleta emocional...
Rimos. Choramos.
Trocamos a cor dos cabelos, o estilo do penteado mas, dificilmente, de opinião.
E assim em pinceladas de autoretrato homenageio a nós – mulheres – neste dia em que somos lembradas e reverenciadas.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Ressaca e despedida


crônica e foto:Walnize Carvalho

Hic! Um soluço interminável, um peso enorme na cabeça (como se pousasse sobre ela um elefante), um gosto amargo na boca – gosto de cabo de guarda-chuva, dizem alguns -, náusea, mal estar, “estômago embrulhado” e o olhar distante fixado em lugar algum.
Sabem de quem estou falando? Da famosa ressaca que,principalmente, nos últimos dias (dias que sucedem ao carnaval) amuitos abate.
Estranhamente reconheço, que tenho quase todos os sintomascitados, embora não ingira bebida alcoólica, nem tão pouco tenha participado da festa.
Sou tomada de uma leve prostração, de desalento, de incômodo.
Movida de certa nostalgia percebo, que também estou de ressaca, mas de uma ressaca atípica: a ressaca da despedida. É hora de retornar da temporada de veraneio.
É tempo abrir o armário, pendurar a fantasia e buscar vestimentas adornadas de bom senso, otimismo, sobriedade e esperança...
É tempo de apagar luzes, fechar janelas, recolher redes nas varandas...
É tempo de arquivar na memória: shows, trios elétricos,churrasqueiras nos quintais, mergulhos no mar, picolés, sorvetes, águade coco, refrigerantes e cervejinhas...
É tempo de se despedir do colorido das barracas a beira mar;dos quioques apinhados de gente colorida; dos encontros vesperais em casa de parentes, dos bate papos com amigos no calçadão ( enquanto a neta brincava descontraída nos brinquedos da pracinha), das idas à Feira da Roça e à Peixaria...
É tempo de passar olhos de adeus sobre a Natureza: sobre o canto dos bem te vis; o farfalhar das folhas das amendoeiras, que correm livres pelas calçadas; o baque no chão, das frutas caídas das referidas árvores; os beija flores sugando papoulas multicoloridas; o gato que se espreguiça no muro do vizinho; a altivez da garça no brejo; da inocência do menino e sua pipa...
E mais... é tempo de caminhar por entre as casuarinas, assistir a dança sincronizada de seus galhos; de ver barcos emborcados sobre a areia e de ir à beira mar e diante do majestoso oceano, agradecer os dias felizes...
É tempo - mais do que tempo - de esperar a noitinha chegar,observar (mais uma vez) a primeira estrela que pintar no céu ( na companhia da lua crescente) e em atitude de contrição e respeito desejar estar de volta no futuro Verão.
No mais, é constatar que a “ressaca”, que quase me levou de roldão,já se diluiu por si mesma permitindo,que eu possa dar início-finalmente- à caminhada do ano novo que me espera.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Liberdade maior


Walnize Carvalho

Queria ser livre
Correr mundos
Viver!...
Até que um dia
(que dia!)
Uma ventania de fim de tarde
Satisfez
O seu desejo.
Que felicidade!
Nos braços do vento
Foi em busca
Da vida sonhada
Da viva
Somente vivida
Pelos passarinhos
Que vinham pousar na árvore em que morava.

E
Lá se foi ela.
Feliz
Correu quintais
Atravessou muros
Percorreu quintais...

Até que...
Um vento maroto
A fez cair
No rio que cortava a cidade.
Levada pelas águas
Se foi para
um mundo
liberto
um mundo
distante
pra não mais voltar..

-Esta é a história de uma folhinha que um dia se foi da árvore do meu quintal.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Encontro inadiável

Walnize Carvalho

- Desta tarde não passa! balbuciou, enquanto se olhava ao espelho.E acrescentou: - Não dá mais para adiar o tão sonhado encontro. ..
Afinal – pensou - nasceram juntas, foram criadas juntas. E, de há muito não se encontravam. Não por falta de querer, de necessitar até.
Mas... com verão, as férias e a presença festiva das netas, resolveu deixar seu projeto para momento oportuno. Sem abatimento e até imbuída de saudade e prazer, acompanhou os momentos de muito agito e poucas horas de descanso vivenciados pelas meninas. E foram dias de banhos de mar em demasia; de comida fria sobre o fogão; de sonoras gargalhadas na varanda; de passeios vesperais no calçadão; de troca troca de roupa, de sussurros e confidências com as amigas. Para elas, as palavras de ordem eram: animação, descontração e ... confusão. As disputas ocorriam a cada minuto: na rede, no lugar à mesa, na fila do chuveiro, em frente ao espelho e no colo da avó.
Gastaram energia, contabilizaram momentos felizes e solidificaram amizades.
À ela– a matriarca da família – coube a função de “ botar ordem no vespeiro”,que iam desde preparar lanches, recolher toalhas molhadas sobre as camas, arrumar revistas espalhadas e atender às coleguinhas no portão...
E, agora, com o fim das férias escolares era a hora da despedida.
As netas se foram.
E naquela tarde, enquanto se olhava no espelho, sentiu que era chegado o momento do sonhado encontro. Já não era sem tempo. Tempo de matar saudades, escutar, dialogar, chorar dores acumuladas, dividir vitórias alcançadas, falar de planos futuros, relembrar o passado, pôr em dia o presente, reavaliar decisões tomadas, filosofar, rir de frivolidades, comentar assuntos triviais: moda, a nova novela das oito, o novo corte de cabelo, a dieta sempre adiada.
Fazer um pouco de análise sobre a crise mundial, futebol, Big Brother... sei lá!
Gastar alguns minutos, quem sabe, horas botando o papo em dia...
E foi neste ímpeto de desejo inadiável que ela decidiu ir ao encontro dela. Saiu-se de frente do espelho.
Tomou uma ducha de água fria, ajeitou os cabelos molhados e os amarrou com um laço de fita.
Arrumou-se de forma despojada (afinal, a estação verão é um convite à descontração): vestido leve e colorido sobre a pele e sandália rasteira nos pés.
Abriu a porta de casa e partiu..
O sol já se punha quando caminhou em direção ao mar.
Sentou-se à sua frente olhando distraída a linha do horizonte.
O olhar fixo fez com que cerrassem as pálpebras.
Deixou-se levar pelo cansaço e estirou o corpo sobre a areia úmida em total entrega, ficando neste estado de letargia por algumas horas.
Foi despertada pelo ruído de um helicóptero que cruzava o céu em direção a alguma plataforma da Petrobras.
Pegou “carona” no voo e, afinal, foi ao tão sonhado encontro consigo mesma.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Luminosa manhã



Walnize Carvalho

Naquela manhã, levantei-me cedo.
Ao invés de ficar sob os lençóis desfrutando de mais uma hora de sono - repito – levantei-me cedo.
Em mente, planos de ocupar o dia faxinando armários, arrumando gavetas, arquivando papéis.
O primeiro gesto matinal foi abrir janelas e portas para bendizer a luminosa manhã.
Lentamente, dirigi-me à cozinha a fim de preparar o café matinal.
Uma brisa suave corria pelos cômodos da casa. O sol, que já estava lá fora dando plantão, veio espalhar seu sorriso por entre as venezianas.
No rádio, em baixo volume, Chico Buarque derramava estes versos: ”Todo dia ela faz tudo sempre igual”. Por um instante peguei - os emprestado para mim e, com um sorriso irônico nos lábios,balbuciei: -Tudo sempre igual! - pensando na rotina das tarefas domésticas.
Imediatamente, me penitenciei do meu resmungo e passei a pensar em outros atos rotineiros: o da vizinha solitária que conversa com suas plantas; o do presidiário; o do enfermo na cama de um hospital ; o do trabalhador ao sol ...
Desliguei o rádio e antes mesmo de dar início aos afazeres que eu me propus executar, fui à janela. Debrucei-me no parapeito, distraída.
Absorvida em meus pensamentos fui despertada pelo canto insistente de um pássaro: - Bem-te-vi! - Bem-te-vi!!! Não reconhecendo, de imediato, de onde vinha tal “chamamento” caminhei ao encontro da ave madrugadora. Ave (diga-se de passagem) de rara beleza, que se caracteriza pela coloração amarela viva no ventre e uma listra branca no alto da cabeça, cujo canto já é o seu próprio nome. Li até certa vez ,que é um dos pássaros mais populares do Brasil, e um dos primeiros a vocalizarem ao amanhecer.
Segui à sua procura. Dirigi-me à porta da cozinha olhando em todas as direções: para o céu, para o muro alto que divide minha casa com a do vizinho, para as frestas do telhado, para os galhos da árvore no fundo do quintal e ... nada de encontrar o “visitante matinal”. E ele, como a brincar de pique-esconde, repetia: - Bem-te-vi! - Bem-te-vi!!! Até que retornando à janela, o avistei no poste da calçada do outro lado da rua.
Balancei a cabeça com sorriso novo nos lábios. A placidez veio me fazer companhia fazendo com que eu alçasse vôo em minhas reflexões: O pássaro chegou. Quebrou o ambiente silencioso com seu vigoroso canto. Como o esplendoroso sol. Como um amigo, que aparece de surpresa e ilumina nossa manhã.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Somente ele


Walnize Carvalho

Ele
somente ele
produz
energia e alegria.

Ele
somente ele
induz
paixão e azaração.

Ele
somente ele
promove
aumento da sede
balanço na rede.

Ele
somente ele
desperta
a libido
estimula
traje colorido
fabrica
sorriso descontraído.

Ele
somente ele
- o VERÃO –
que mesmo com calor incandescente
permite
que alguma flor remanescente
perfume
e brilhe
fora da estação.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Mormaço


Walnize Carvalho

Quando o Amor
passa
é
como um dia
de
Mormaço.
Você se distrai
Esquece
O chapéu o protetor solar.
A brisa é fresca,
A manhã é bela
Você se deixa envolver...

Percebe
ao fim do dia
o corpo
febril
tatuado
intocável.
Abre a janela
E pede
A brisa da noite
Que sopre
Pela sua pele nua
E
Suavize
o
ardor
da
Paixão.

sábado, 31 de dezembro de 2011

FELIZ ANO... de novo


Walnize Carvalho

De novo, a falsa euforia...
De novo, o engarrafamento...
nas ruas
nas mesas
Alegria?!

De novo, o vestido branco.
De novo, papéis picados do Banco.

De novo, tilintar das taças.
De novo, o riso de graça.

De novo, praia cheia
- oferendas na areia.
De novo, o comer de uvas, lentilhas.
De novo, catador de latas vazias.

De novo....
De novo...
Novamente
A espera por bonança.
A E S P E R A N Ç A.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Visita natalina

Walnize Carvalho
Manhã de vinte e cinco de dezembro.
A menina não foi a primeira a se levantar, como de costume. Nem tão pouco a que procurou bem cedo seu presente no sapatinho ao lado da cama.
A mãe estranhou. Veio olhar. A garota ainda dormia.
Observou, que estava toda encolhidinha no canto da cama. Parecia sentir frio. - Como, se era verão?!...balbuciou, a zelosa senhora.
O instinto materno acusou, que provavelmente sonhava e que derramava um leve sorriso no canto dos lábios. Viu que os olhinhos andavam. Tremiam. Coisa própria de criança entregue ao sono.
As irmãs já haviam aberto seus presentes e nas poucas vezes em que podiam ir à rua – rua que passava o bonde bem rente a calçada - ( e a ocasião do Natal era uma delas) se preparavam para mostrar às colegas da vizinhança suas novas bonecas. Geralmente eram bonecas.
E ela, Nani... Nani? Nani era seu nome, porque demorava a se levantar, pois se foi a primeira a se deitar na véspera, tamanha a ansiedade pela chegada do Papai Noel?...
A menina acordou. Com ares de felicidade revelou aos pais, que naquela noite viu quando o Bom Velhinho chegou. Estava muito cansado, quando dela se aproximou. Aos pés de sua cama, sussurrou-lhe para que as irmãs não ouvissem: - Menininha, não conta para ninguém! Posso descansar aqui um pouquinho?
Ela permitiu. Encolheu-se para o canto e deixou que ele repousasse... Findo o mistério.

Olha, amados leitores! Talvez para uns, a história esteja incompleta; talvez para outros, Papai Noel não exista; talvez para alguns, o “sonho não acabou”e ,talvez para muitos esta singela historinha tenha servido de reflexão e saudade, da época da inocência ,a que nos transportam remotos natais.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Trajetória



Walnize Carvalho

De repente, formou-se um brilho –um fulgor.
E,aos poucos,daquele claridade algo nasceu.Algo brotou
Va- ga- ro – sa- men – te.
E ,de repente,
Foi crescendo...crescendo...se evoluindo
E, de travessa saiu correndo...correndo
Descendo medrosamente,
Escorregando rapidamente
Como se quisesse desabafar.
Como se quisesse gritar
Ou mesmo se encontrar
Fugir
E nessa trajetória
Continuou a correr.
Até que
Repentinamente
Caiu
Morreu
Desabafou
Se encontrou!...

Este foi o fim de uma lágrima teimosa que brotou de um olhar triste.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Travessura de mãe


Walnize Carvalho

A mulher percebeu do seu quarto que do cômodo ao lado vinha uma claridade. Caminhou até a sala.
Olhou com olhos preguiçosos de abrir, o relógio na parede: duas horas.
Atravessou o corredor.
A luminosidade que filtrava em toda casa vinha do quarto dos filhos.
Espiou, discretamente, pela abertura da porta.
Estavam dormindo. Janela aberta. O frescor da madrugada sobre suas faces.
Eles ali dormindo, displicentemente.
Ela os olhou com ternura.
Apagou a luz do abajur. Desligou o som.
De volta à sala procurou na estante o livro “Tantas Vozes” de Ferreira Gullar . Encontrou o poema “Filhos”.(*)
Enxugou a lágrima teimosa e, numa atitude pueril, buscou no fundo da gaveta do armário da cozinha uma lanterna.
Sorrateiramente entrou no quarto. Munida de luz e caneta “pilot” transcreveu os versos na porta clara.
Escreveu. Riu. Segurou a emoção para não escapar nem um ruído que fizesse os meninos acordarem .
Acabando o poema, suspirou pensando : como é bom se criança. Ser mãe. Ter os filhos que eu tenho!
Perdão filhos! Por ter brigado tantas vezes pelas garatujas que fizeram em criança!
Filhos
Ferreira Gullar

“ Daqui escutei
quando eles
chegaram rindo
e correndo
entraram
na sala
e logo
invadiram também
o escritório
(onde eu trabalhava)
num alvoroço
e rindo e correndo
se foram
com sua alegria
se foram
Só então
me perguntei
por que
não lhes dera
maior
atenção
se há tantos
e tantos
anos
não os via crianças
já que
agora
estão os três
com mais
de trinta anos.”

sábado, 26 de novembro de 2011

Tem que ser


Walnize Carvalho

Tem que ser
obediente
complacente
convincente

Tem que ser
crítica
apolítica
dogmática

Tem que ser
humorista
otimista
altruísta

Tem que ser
guerreira
pioneira
alvissareira

Tem que ser
antenada
plugada
conectada

Ah!
sociedade
controladora
dominadora
castradora

Sou
um
SER QUE TEM
despojamento
sentimento
e
no pensamento
uma enorme vontade de acertar ...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Esperança na Arte



Walnize Carvalho

Sempre acreditei que a ARTE (assim como diz a letra de Caetano Veloso em “Desde que o samba é samba”) tem “o grande poder transformador”.
Somente ela revestida em música, pintura, dança, teatro... e – principalmente – em literatura consegue dar nova forma e sentido à vida.
Vez por outra, lê-se registros desta constatação – e, porque não dizer, inquietação – de articulistas, poetas, cronistas, e dos que lidam em geral com a palavra.
Bem se sabe que ela não atua como efeito bumerangue (bate e volta aos que escrevem), mas que corre como flecha ligeira em busca de corações desprotegidos.
Daí a importância de que a literatura tenha sempre um “palco” para se apresentar e de “platéia” que possa interagir com ela.
Por aqui se vê entidades, instituições, fundações, academias de letras, cafés literários, casas de cultura, salas de espetáculos, vários espaços em que ela “abre-alas e pede passagem” e encontra reciprocidade.
Mas... há de se querer mais!
Que ela visite mais escolas, universidades, blogs, canais de tevê, emissoras de rádio...
Particularmente, não tenho o que reclamar, pois (sem vaidade) aqui estou com meus textos que transitam livremente
É necessário que ela (mais uma vez, a literatura) faça piquete nas portas dos bancos; se infiltre em filas intermináveis de espera.
Seja sorvida entre bebidinhas e conversinhas nos points da cidade.
Torne leitura em ante-salas de consultórios médicos, odontológicos e de profissionais liberais substituindo, talvez, revistas de moda e de fofocas de artistas.
Que ela saia em passeatas pelas ruas sendo panfletada entre vendedores, comerciantes, consumidores, anônimos e curiosos.
Bata ponto nas rodas de café e seja assunto interessante entre grandes negócios feitos nas manhãs do Boulevard.
Brinque nas praças; visite presídios, orfanatos, templos e asilos. Que seja estampada em outdoors nas nossas esquinas.
Sem utopia. Dia virá em que “a arte de compor trabalhos artísticos em prosa e verso” – a literatura – será servida como prato principal aos que são famintos de transformação.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

História em quadrinhos


Walnize Carvalho
Manhã de sábado.
Ida ao shopping.
Entre pessoas apressadas, curiosas, mal-humoradas, com sacolas, com crianças, cenhos fechados, observadoras, casais de namorados... Ela passa, a mulher.
Observa o olhar faminto. Uns com fome de guloseimas, outros de consumos materiais.
E como o lugar é propício para diversão, lazer e prazer, flagra sorrisos de felicidade: da moça no balcão da loja olhando as fotos reveladas; da jovem na livraria recebendo um livro de presente; da menina comprando sorvete de três sabores; da senhora pesando na balança da farmácia.
E mais a alegria estampada no senhor sorvendo vagarosamente o café expresso; do menino jogando videogame; do rapaz assistindo esporte na tevê da loja; do idoso conferindo a tabela de promoção de remédios...
Continua andando.
Um “flash” a faz parar. Uma pessoa a observa.
Está diante de um espelho. A mulher e a escritora frente a frente completam os personagens da história em quadrinhos de uma revista diária.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Maria Alice e a morte

Maria Alice é a minha amiga mais próxima. Digo que nos conhecemos desde sempre. Tem uma rabugice única, um bom coração e é a mais passional das criaturas, o que pode ser muito ruim ou muito bom.

Minha amiga tem teorias singulares sobre várias coisas, a teoria sobre a morte e os fatos que a envolvem são de fazer rir.

Odeio gente que não sabe se comportar em velório. Velório é lugar de dor e não de contar piadas “para fazer esquecer o sofrimento” como os engraçadinhos inconvenientes apregoam.
Velório não é lugar para roupas coloridas, nem lugar para decotes. Eu já avisei: quem aparecer vestida de maneira inadequada no meu velório vai arcar com as consequências. Eu volto para puxar o pé na mesma noite.
Acho tão bonito uma viúva de luto. Hoje em dia esqueceram o luto. Acho o luto fundamental para a saúde emocional. Ele tem sua razão de ser. É momento de chorar, de coração dorido. Quem não vive o luto paga o preço em algum momento. E para isso um pretinho básico ajuda muito.
Detesto escândalo em velório. Choro verdadeiro não é escandaloso. Desmaios também me irritam. Quem sofre de verdade, chora, chora sem som, abraça os amigos, molha o rosto sempre que sente um nó na garganta. Gente que ameaça se jogar no túmulo para mim é sem educação e falsa. Quem sofre, apenas chora, chora muito. Se usar óculos escuros fica sem dúvida um choro beirando á perfeição.
Gosto de véus negros, pena que hoje quase ninguém usa chapéus com véu então... No velório do meu marido ameacei usar um chapéu, fui demovida da idéia. Usei meu véu negro e um terço. Chorei muito. Gosto de chorar.
Usei um mês de luto fechado e outros tantos de luto menos rigoroso. Vivi minha dor. Sobrevivi.

Essa é apenas a primeira das histórias da minha amiga, vou contar sempre que der vontade. Seu nome foi trocado por razões óbvias.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Explosões silenciosas



Walnize Carvalho



Céu estrelado em noite de luar...



Arco-íris em fim de tarde...



Gota de orvalho na folha...



Flores em beira de estrada asfaltada...



Marolas em rio vistas da ponte...



Pássaros em fios elétricos de postes...



Lágrima em olhar saudoso...

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Cercas


Walnize Carvalho


Andando pelas cercanias

da cidade

Vejo que

mais e mais

precisamos de cercas.

Da prisão de olhares

de ternura

Do contorno de abraços

de afeto

Da cercadura de gestos

de amor

Do muro de atitudes

de amizade.


E deixando

de ser

reféns de preconceitos.

Por certo

seremos

prisioneiros – libertos

de

nós mesmos.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Se eu voltasse a ser criança


Walnize Carvalho

Ah!
Se eu voltasse a ser criança
A criança de verdade que fui...

Se este sonho
Se tornasse realidade.
Sentir a infância.
Voltar no tempo...

Viver
Novamente
Um mundo de sonhos
_sonhos dourados
Com bonecas
De pano
De louça...

Viver novamente
Um mundo à parte
Todo meu
Inteiramente meu...

Um mundo
Que não pode ser:
Trocado
Roubado
Muito menos vendido
Porque
As fadas
Os dragões
E Cinderelas
Não têm preço.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Conversinhas


Walnize Carvalho

No teatro da Vida procure ocupar papéis alternados. Ora “palco”, ora “platéia” e outras vezes “bastidores”.
Revezando funções dá para se ver o “espetáculo” de vários ângulos e matizes.
Aprenda com o “eclipse”. Um astro deixa de ser visível no todo ou em parte mas nem por isso – sol e lua – deixam de dar um “show” no céu.
• Fale... Olhe. E principalmente escute. Estamos tão carentes de ouvintes!..
• Ouça o papo de um idoso por mais repetitiva que possa ser a sua história.
• Se permita chorar em público, a se olhar no espelhinho dos carros estacionados nas ruas, a perguntar como a máquina do banco funciona, a cantarolar empurrando carrinho no supermercado sem se preocupar de estar pagando “mico”.
• Saiba distinguir até que ponto você é “bom” ou é apenas “útil” para alguém.
• Cuide para que o seu corpo, não tenha ossos enfraquecidos como seu espírito não sofre de “osteoporose”.
• Aprenda a se fazer companhia. Solidão nem sempre é isolamento.
• Procure ter pares no seu dia-a-dia.
Ter par não é só ter “par romântico”.
Podemos ter parceria em idéias, gostos, prazeres independente de idade e sexo.
• Tenha como meta a palavra “entusiasmo”.
Ele é que nos faz caminhar, em qualquer idade, em qualquer ocasião ou oportunidade.
Ânimo sempre! Quer seja para comprar aquele vestido tão sonhado na vitrina ou aquele batom no camelô da esquina.
• Organize sua agenda pessoal mas não se esqueça de colocar nela compromissos literários e culturais.
• Esqueça as marcas do tempo em sua face. Não queira enrugar a alma.
• Suavize seus atos rotineiros. Não os faça como se cumprisse tarefas.
• E ao acordar descortine o dia como se ouvisse o chamamento:
“Hoje tem espetáculo”! e responda:
- “Tem, sim senhor”.
Verifique qual o papel a você determinado. Abrace-o com garra. E “sucesso”!

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Uma senhora chamada Cidade



Walnize Carvalho

Na varanda sentada em sua cadeira de balanço, a velha senhora observa a planície.
Vê por entre os verdes canaviais alguns filhos seus com foice e enxada em mais uma labuta diária. E, suspirando, balbucia: - Estes são o meu orgulho!
Fechando os olhos visualiza outros tantos que como aqueles madrugam em busca do pão do dia-a-dia.
A prole é imensa: vai de operários a doutores.
Sabe quantos têm por ela respeito e consideração. Mas... enxugando as lágrimas reconhece que há os que se perderam no caminho e a fazem sofrer.
Lembra que em tempos idos ela – esta agora mãe sofrida – era reconhecida pelos seus valores e tradições merecendo o título honroso de “Espelho do Brasil”.
Recorda também com saudade de ter sido chamada de “Intrépida Amazona”, de “Terra do Açúcar” e porque não da goiabada dado o perfume que exalava das entranhas de suas usinas e fábricas.
Mesmo amargurada sabe que ainda há muitos que desejam vê-la soerguida. Almejam que se levante da cadeira e saia do estado de prostração em que se encontra.
Pois, não foram poucos os filhos que a cantaram em prosa e verso.
Não foram poucos os filhos que levaram o seu nome para rincões distantes...
Um breve cochilo a faz sonhar.
Tem a nítida impressão de ouvir o apito da Fábrica de Tecidos; o movimento de entra e sai de “suas crianças”.
Parece ver o alarido de seus meninos descendo as pontes pedalando suas bicicletas - verdadeira revoada de pássaros.
Desperta.
Volta o olhar sobre o horizonte.
Nova onda de nostalgia a invade e se pergunta: - O que fez com que alguns de seus filhos se tornassem irreconhecíveis, verdadeiros vilões? E se responde com certa culpa (as mães sempre se acham com culpa): - Seria a fortuna adquirida e a ânsia de querer mais?...
Levanta-se da cadeira de balanço.
Caminha para o quarto. Deposita sobre a cômoda o terço que trazia em suas mão
E como “coração de mãe não se engana” tem esperança de que os filhos desgovernados retomem o caminho da retidão e devolvam-lhe a dignidade e honradez.