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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Conto de Jardim: Equinócio

Aquela manhã de setembro estava insuportável. Desde que voltara ao trabalho, sócia numa pequena empresa, as sextas-feiras eram um tormento.
Dois dos colegas nunca se entendiam e perdiam um tempo enorme tentando provar que estavam certos, ela tão sonhadora na vida pessoal era extremamente prática no trabalho e se via sempre forçada a tomar as rédeas da situação.
Enquanto brigavam ela com uma enorme dor de cabeça se esforçava para terminar os relatórios semanais e deixar pronta a pauta da nova semana.
Aviso do porteiro, encomenda para ela.
Começou a rasgar o papel na sala comum aos sócios, se deteve assim que viu o nome da loja na pequena caixa. Foi para a sala privada e sorriu quando terminou de abrir. Lingerie preta com renda francesa. Com certeza ele havia visto seus olhos cobiçando as peças quando passaram em frente à loja.
Vivem o doce desequilíbrio dos sentimentos intensos.Separam-se e juntam-se, perdem-se e acham-se.
Divagava sobre o seu amor em meio aquele caos de papéis e contas.
Som de mensagem. Um SMS: Te aguardo...agora!!
Deixa um bilhete na secretária e sai apressada.
Ele a recebe com um sorriso e um beijo demorado.
No carro as botas de montaria castanhas , uma cesta enorme, mala.
Ia ser "raptada" para a serra. As crianças estavam na casa dos tios, ele avisava.
Caixa de presente na mão, deixa o vento bater na cara.
Equilibram-se nas primaveras e outonos, quando as almas milagrosamente se fazem harmônicas.
Acordam junto com o sol e vão colher o dia. Andam agora a cultivar auroras.

sábado, 3 de abril de 2010

História da princesa moura e do dragão azul


História da princesa moura e do dragão azul, (in Textos e cartas de Pedro Paixão a Helena Águas 1985-1986)

Esta é a história de uma princesa moura das terras quentes do sul
e de um dragão azul - que era afinal um príncipe
das terras altas do norte

Andava a princesa desaustinada, numa noite de temporal
e absolut vodka, num reino que ficava equidistante.
(Ela não sabia do que andava à procura.)
Entrou na sua carruagem puxada por noventa cavalos e tinha apenas percorrido alguns metros quando se lhe atravessou no caminho um jovem dragão azul com figura de príncipe, molhado como um pinto por causa da chuva que caía muito forte. Ela parou, baixou o vidro da carruagem, e ele quis saber que música vinha ela a ouvir e para onde ia ela àquela hora da madrugada.

Logo aí a moura percebeu que era um dragão azul das terras altas do norte que lhe falava a sorrir, e foi sem ela se dar conta que ele a raptou, convidando-a para sua casa...
Ainda se perderam, porque o belo dragão ainda não sabia de cor o caminho de casa.
Mas a princesa deixou-se levar até ao castelo, feliz por acreditar que o dragão não lhe iria fazer mal - quem sabe seria um príncipe? (Parecia mesmo um príncipe que ela já tinha visto num filme!...)

Encontraram-se numa noite de temporal
entre o norte e o sul
e foi ela que o guiou
sem saber que estava a ser raptada

Quando chegaram ao castelo o príncipe abriu a porta devagar e entraram os dois pé ante pé, pois todos se encontravam já a dormir.
Os aposentos continuavam mergulhados na penumbra da madrugada e a princesa moura ficou a saber que no castelo não havia luz nem água, e por isso foi preciso acender uma vela.
Conversaram de música e cinema durante um bocadinho, mas o dragão dentro do príncipe começou a beijar a moura, que estava cheia de medo.
(Não é todos os dias que uma moura é raptada por um dragão azul das terras altas do norte!...)
E cheia de medo ela se foi entregando devagarinho até deixar de ser princesa, para se transformar numa sereia nos braços do belo príncipe...
Abraçaram-se muito, beijaram-se muito, mas ela temia que o dragão fosse apenas mais um sapo, e lá se ia protegendo como podia, dando muito mas não tudo.
Queria sossegá-lo, ao príncipe, mas o dragão não queria sossegar...

E foi preciso muito carinho e ternura e paciência para adormecer o príncipe e o dragão dentro dele...

Depois a sereia procurou peça a peça as suas roupas espalhadas pelo chão e foi-se vestindo devagar e sem barulho, para não o acordar.
Ela apagou a vela, tapou o príncipe adormecido e beijou-o docemente na face. Ele sorriu, sem abrir os olhos.
E a moura disse "Até logo".
Encantada.

L.A.
Coimbra, 1998

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Conto de Jardim: Coisas simples


Passadas as festas a vida voltou para sua confortante rotina.
Ela a salvo em sua cozinha e na biblioteca da aldeiota perdida no meio do nada. Ele se aventurando pelo mundo a trabalho.
Mas a rotina a dois é cheia de intensidades.
Naquela manhã dormiu um pouco além da conta,ele saiu sem acordá-la. Era dia de almoçar sozinha. Resolveu passar o resto de manhã no jardim.
Sentou-se num banco no canto entre as roseiras e abriu o livro que estava lendo há semanas. Surpreendeu-se com um papel dobrado. Letra dele, homem de muito carinho e poucas palavras escritas. Entre aspas um bilhete:

"Queria partilhar contigo os momentos menores

da minha vida,

porque os grandes já são teus."

(Poema de JG de Araujo Jorge do livro – A Sós – 1958 )

  

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Conto de jardim:Conto desse lugar


Teve dificuldades em dormir. Foi uma noite conturbada. Calor, pensamentos desconexos, lembranças que preferia esquecer. Insetos!
Antes das cinco da manhã resolveu acabar com o sofrimento. De hoje não passava.
Tomou uma ducha bem quente, vestiu a roupa de banho, o vestido leve que mais gostava e calçou uma sandália rasteira.
Penteou os longos cabelos, pegou a bolsa enorme e os óculos escuros.
Ligou o carro e saiu com os vidros abertos deixando que o vento da manhã invadisse as narinas.
De hoje não passaria.
Chegou à margem do imenso rio e desceu a escadinha íngreme bem onde as águas seguiam numa enorme curva.
Descalçou as sandálias e arriscou molhar os pés. Sentiu a força da água.
Subiu os degraus de volta, entrou no carro e pegou a estrada.
Depois de mais de quarenta minutos avistou o mar. Ondas violentas. A luz do sol filtrada pela neblina matinal.
De hoje não passaria.
Tirou o vestido leve e foi caminhando rumo às ondas violentas.
A primeira veio forte e encobriu seu corpo. Mergulhou e nadou vigorosamente. Avançou mar adentro. Sentiu uma energia estranha.
De hoje não passaria.
Depois de longos minutos enfrentando as vagas daquele mar que conhecia tão bem, nadou de volta à praia.
De hoje não passaria.
Deixou pra trás tudo que incomodava sua alma tumultuada.
Sorriu revigorada. Finalmente seu ano novo havia começado.



segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Um conto de princesas só pra mim

Resisti um pouco em escrever esse pequeno post porque auto-referência é um pecado muito feio pra quem escreve.

Pecado maior seria não agradecer esse mimo que recebi do Luís Bento no seu bento-vai-pra-dentro.

Então pra ficar no meio do caminho resolvi postar a foto e deixar o link para o Blog do Luís. Quem quiser conhecer essa homenagem linda que ganhei clica aqui.