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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Executiva


Executiva
Walnize Carvalho


Não abre a janela.
O dia amanhece
E não saúda o sol.

Não abre o livro.
O fim da tarde chega
E a varanda vazia.

Não abre a gaveta.
Lá bem guardadas
As fotos de infância.

Não abre o sorriso
Nem troca idéias
Com a vizinha.

Só abre o armário
Para se vestir
Apressada.

Só abre a garagem
Para
Sair com o carro blindado.

Só abre a agenda
Para
Conferir compromissos.

Anoitece.
Fecha
As pálpebras
E só...
Adormece.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Banalização

Walnize Carvalho


No bangue-bangue da Vida/ é preciso .../ desarmar corações empedernidos/ combater atos preconcebidos/ distribuir balas de puro mel/ limpar da boca amargo fel/ desconsiderar algo sem relevância/ desatar nós de ignorância/ cultuar a fraternidade/ defender a liberdade/ desfraldar sorrisos ao vento/ viver o fugaz momento/ decorar um poema bonito/ desprender de enfadonho rito/ desmistificar que é “dono da verdade”/ soltar “a criança” em qualquer idade/ reverenciar o sonhador/ acreditar no Amor/ desenraizar a amargura/ exercitar a ternura/ conservar a calma/ desenferrujar a alma ...
E
armar-se de boa dose de ânimo/ para enfrentar a batalha do cotidiano.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Sem par


Walnize Carvalho

Se incomoda
Com o latido
Do cachorro do vizinho.

Se incomoda
Com o miado
Do gato no telhado.

Se incomoda
Com o som do carro
Que passa na rua.

Se incomoda
Com o ruído do brinquedo
Da criança na calçada.

Se incomoda
Com as gargalhadas
Do jovem ao celular.

A noite chega.
Se acomoda no leito e fica em paz :
Ela e a solidão.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Feira de artesanato

Walnize Carvalho

A brisa matinal é um convite a caminhar pela cidade.Sigo até a praça principal, onde abriga a Feira de Artesanato.Meu olhar distraído debruça-se sobre a primeira barraca que está sendo montada .Sinto-me privilegiada por ver o show,com antecipação.

O sol vem, como refletor, iluminar os trabalhos manuais que estarão expostos naquele espetáculo.
No “palco”,em breve, se apresentarão: toalhas,caminhos de mesa, babadores, toalhinhas e mais adornos.Tudo ricamente bordado.

À frente, como criadora dos personagens –ela- a artesã solitária.

Afasto-me, torcendo pelo sucesso da apresentação

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O escritor


Walnize Carvalho
(para meu pai Waldir Carvalho)
Todos os dias ele se refugiava na sua ilha .
Ilha da fantasia.
No escritório biblioteca, em frente à maquina de escrever , ele sonhava
Viajava por passeios que não fez ;
Via cenários que não eram seus seus ;
Promovia diálogos dos quais não participava.
Na companhia do instrumento de trabalho, ele criava
Letras,palavras e textos .
Historias que brotavam da mente e do coração .

Mais tarde,impresso em papel
O fruto da sua imaginação –o livro –

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Vocações


Walnize Carvalho

- O que você vai ser quando crescer? – perguntaram à menina do cacho dourado. E ela prontamente respondera, como aliás, por certo responderiam meninas de cabelos de franja, de rabos de cavalo, de laços de fitas, de toda uma geração igual à dela: - Professora!
E assim foi que o tempo incumbiu-se de fazê-la exercer a profissão profetizada em sua inocência dos sete anos.
Espelhada em doces lembranças como a de ir de mãos dadas para a escola com a mestra que era sua vizinha, ou a de brincar de professora com primos que vinham do interior (com direito a “ditado” e “redação”) sentira que fora boa mestra nos alguns anos que estivera em sala de aula.
O grupo escolar em distrito a vinte e dois quilômetros da cidade, por lá estivera em dias de sol, em dias de chuva e até grávida dos dois filhos sem nunca faltar à doce missão...
Depois várias vocações surgiram em seu caminho: dublê de mãe, de dona de casa, de avó, de contadora de histórias, de poeta...
Com o tempo passando notara que o bom exercício delas, se devia ao fato de que se tornara mais aluna do que educadora.
E, em dias de reflexão, revendo no currículo o campo “habilidades profissionais” percebera que a na Escola da Vida não havia sido reprovada na matéria Boa Vontade e uma forte constatação: sempre tivera VOCAÇÃO para a FELICIDADE.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Busca

Walnize  Carvalho
Eu busco um sorriso
Sorriso puro
Que não seja um riso só.

Eu busco um canto
Um canto igual
Canto de paz.

Eu busco no Tempo
meu tempo
Sem tempo de voltar.

Eu busco um olhar
Olhar criança
Olhar esperança.

Eu busco o AMOR
O Igual
A Paz
E muito mais!

Eu busco um céu
Onde brilhem estrelas
De todas as cores
De todas as luzes
De todas as raças
E que reunidas
Só tenha o tom:
IGUALDADE.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Resgate

Walnize Carvalho

Acordou com vontade de trazê-la de volta.Nem que fosse por algumas horas.
Levantou-se da cama.Cabelos em desalinho.Lençóis com as marcas do seu corpo (deixaria tudo para acertar depois)
Procurou no guarda-roupa um vestido branco, próprio para o dia de primavera com ares de verão.
Enquanto amarrava o laço de fita na cintura (ele tinha um laço de fita cor de rosa) lembrou-se que em criança tinha um anel de chapinha.
Nele impressas as iniciais do seu nome.
Lembrou-se também da caixinha em que guardava o mesmo: caixa de veludo azul, onde apertando ficavam as marcas dos dedos.
Saiu à rua com a idéia bailando em sua mente: “vontade de trazê-la de volta...”
Seguiu até a feira do Mercado Municipal.
Comprou uma cesta de cajus fresquinhos.
Trouxe para casa. Na cestinha (achava linda, sentiu-se a própria chapeuzinho vermelho)...
Entrou.
Foi à pia.Lavou algumas frutas.Como uma menina levada sentou-se no umbral da porta da cozinha.
Saboreou os cajus displicentemente.
No vestido branco, as nódoas trouxeram afinal, a sua infância devolta.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Foto mensagem



Foto Walnize Carvalho

Mesmo com todos os percalços a flor amarela representa brasilidade em tempos de Copa do mundo.

sábado, 12 de junho de 2010

Mormaço


Peço desculpas pelo atraso. A Walnize me mandou o texto desde quinta-feira e eu na correria e no meio de um gripe que resolveu não me largar acabei por postar só agora.

Mormaço
Walnize Carvalho
(pelo Dia dos Namorados)


Quando o Amor
passa
é
como um dia
de
Mormaço.
Você se distrai
Esquece
O chapéu o protetor solar.
A brisa é fresca,
A manhã é bela
Você se deixa envolver...
Só
Percebe
ao fim do dia
o corpo
febril
tatuado
intocável.
Abre a janela
E pede
A brisa da noite
Que sopre
Pela sua pele nua
E
Suavize
o
ardor
da
Paixão.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A dor de mudar


Ainda que com dor

Walnize Carvalho

Ainda que com dor
é necessário
jogar fora
papéis entulhados
nas gavetas.

Ainda que com dor
esquecer
amizades sucateadas
amores
não correspondidos.

Ainda que com dor
tirar
do fundo dos armários
retalhos
desbotados.

Ainda que com dor
é preciso
arrancar, sem anestesia
o medo
e
o medo
de perder o medo.

Ainda que com dor
retirar
as teias
dos cantos dos
cômodos,
o mofo
das prateleiras
do
comodismo.

Ainda que com dor
faxinar da
Alma
os maus presságios.

Ainda que com dor
extrair a fórceps
qualquer
sentimento
de
CULPA
E tentar um novo CAMINHO.

*(Uma eterna Aprendiz da vida)

sábado, 8 de maio de 2010

Porque só somos mães por causa deles...


Parceiros

Walnize Carvalho

Os conheço de longa data.
Parceiros, amigos, quase gêmeos... Irmãos!
São que se pode chamar: banana iconha; irmãos siameses; a porca e o parafuso; o Gordo e o Magro; Cosme e Damião; Jararaca e Ratinho; Chitãozinho e Xororó; dada à afinidade e cumplicidade que os une.
Na infância, Batman e Robin foram seus personagens preferidos, o que correspondia vestirem, literalmente, a fantasia...
Cresceram freqüentando os mesmos bancos escolares, as mesmas festinhas, repartindo desabafos e confidências com os mesmos amigos.
Como em qualquer parceria (e com eles não pode ser diferente) ficam definidas as sutis diferenças, pois são elas que dão o toque harmonioso da convivência.
Com o passar dos anos, cada um seguiu seu caminho, na escolha das profissões, das paixões e decisões.
Mesmo assim – ainda que ocupem espaços físicos diferentes – percebe-se uma linha tênue e transparente que faz com que se aproximem sempre.
Há uma torcida mútua pelo sucesso de cada um. (Ah! não posso em esquecer!...) torcem pelo mesmo time de futebol, o que os leva aos estádios em prazerosas tardes de domingo.
Em se tratando de dor ou alegria seguram-nas de mãos dadas e firmes dividindo o peso em partes iguais.
Existe compreensão recíproca no modo de agir, pensar e viver já que com o amadurecimento os traços de suas personalidades ficam bem evidenciados: um carrega o piano, o outro toca o piano; um é samba, o outro é jazz; um dirige o carro, o outro é sempre carona; um está sempre pronto a ajudar, o outro sempre pronto a ser ajudado...
E foi por conta disso, que dias desses – descontraídos e felizes – se auto-denominaram: o prestativo e o imprestável acompanhado de sonoras gargalhadas.
Abraçaram-se como “cocota e ranheta” e pude – mais uma vez – ver selada a fraternidade entre eles.
(aos meus filhos dos quais recebi o título de Mãe)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Trova


Walnize Carvalho


Meus olhos são como boca
Minha boca um par de olhos
São pontes da vida louca
Deste meu mar de abrolhos

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Vitoriosa


Walnize Carvalho

Sou vitoriosa

Quando choro

Quando coro

Quando rio

Quando crio

Quando creio

Sou vitoriosa

Quando mudo

Quando estudo

Quando aprendo

Ou me rendo

Sou vitoriosa

Quando troco de calçado

Ou de calçada

Troco de Estado

De estado civil

E nem ligo

Quando dizem

“ — Onde já se viu?”

Sou vitoriosa

Quando digo: NÃO!

Quando digo: SIM!

Sou vitoriosa

Quando

amo a MIM...

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Na retina dos meus olhos


Walnize Carvalho


Na retina dos meus olhos
habitam
límpido céu
plácido lago
mar azul.

Na retina dos meus olhos
desfilam
crianças saltitantes
pessoas hesitantes
sem norte sem sul.

Na retina dos meus olhos
pairam
rios poluídos
prédios demolidos
lágrimas de dor e sal.

Na retina dos meus olhos
fixam
COTIDIANAMENTE
Alegria
Sofrimento
Paz
Encantamento
O Bem e o Mal.


sexta-feira, 9 de abril de 2010

"Mas eis que chega a roda viva..."


Roda Viva

Walnize Carvalho

Na banca de revistas,
Grupo de homens
Filando
Leitura de jornais.

No umbral da janela,
Roda de pássaros
Disputando
Farelos de pão.

Na porta da igreja,
Cacho de velhinhas
Rezando
Oração matinal

No meio da praça
Conjunto de transeuntes
Ouvindo
Pregação do vendedor.

Na frente da escola
Penca de estudantes
Concorrendo
Vagas de ensino.

Na entrada da repartição,
Aglomerado de rapazes
Pleiteando
Emprego definitivo.

No azul do céu,
Enorme círculo dourado
Iluminando
A roda viva da cidade.

domingo, 4 de abril de 2010

Novamente



(*) Walnize Carvalho

O Valor das Palavras
O enorme valor do prefixo RE.
Em tempo de RESSURREIÇÃO, vale REFLETIR. Que tal?

REcitar um poema?
REdescobrir um caminho?
REatar uma amizade?
REver um amigo?

REalçar um sorriso?
REacender uma paixão?
REcontar uma história?
REconquistar um afeto?

REpensar a solidão?
REler um bom livro?
REciclar uma idéia?
RElembrar a infância?

REfazer um trajeto?
REtribuir um gesto?
REaprender com o idoso?
REviver uma emoção?

REencontrar a si mesmo...

“REinventar a VIDA?”

sexta-feira, 26 de março de 2010

Paz, explosões, inquietude...



Walzize Carvalho

Explosões silenciosas

Céu estrelado em noite de luar

Arco-íris em fim de tarde

Flores em beira de estrada asfaltada

Marolas em rio vistas da ponte

Pássaros em fios elétricos de postes.

Lágrima em olhar de mãe saudosa


Paz inquieta


O grito de um

filho

chegando de viagem

no portão de casa.

-Mãe!Já cheguei!

Os pingos da chuva

Na janela do quarto

Na manhãzinha.

Correria dos meninos atrás

da bola na rua

vazia.

Rádio ligado na

“Ave Maria” do

solitário ouvinte

no estacionamento

de carros.

Cantarolar de

minhas netas

de músicas de antigamente.

Arrastar de

Cadeiras para

Almoços em família.

Ouvir “Alô ao

Telefone de

Alguém que lhe

quer bem.

Escutar a batida

do meu

“coração”.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Uma rosa em segredo



Walnize Carvalho
Dora passava pela rua quando deparou com uma manifestação popular. Bem diferente de gritos exaltados havia cantoria que se misturava com orações, palavras afetuosas e...distribuição de rosas.Rosas vermelhas.
Timidamente, aproximou-se do grupo e se deu conta que se tratava da comemoração do “Dia internacional da Mulher”.Ficou por ali calada e emocionada quando um dos manifestantes aproximou-se dela e lhe entregou uma rosa.Rosa vermelha.
Ruborizada, mas feliz fez o trajeto de casa carregando o mimo nas mãos como quem carrega algo precioso e frágil. E era frágil. Era uma rosa. Uma rosa vermelha. E era preciosa, pois não se recorda dia algum em que levava em mãos oferta tão significativa.
Visivelmente envaidecida, aspirava de minuto a minuto o belo presente.
Quase chegando à casa, uma dúvida misturada com angústia povoaram seu pensamento: Como abrir a porta da sala e deparar com Dagoberto - seu marido-( que por certo estaria lendo os jornais) com a rosa vermelha vistosa e perfumada, sem que ele a olhasse com espanto e a enchesse de perguntas quebrando todo o encantamento?
Preferiu entrar pela portas dos fundos e no quartinho dos fundos acomodou “sua menina” no primeiro recipiente que encontrou.Buscou água para regá-la e dia após dia cumpria o prazeroso ritual de ir visitá-la para inebriar-se com o seu perfume...
Até que ,numa manhã, Dagoberto (o marido) anunciou viagem de negócios.
Dora correu a um só fôlego para o cômodo onde trazia prisioneira, a rosa.A rosa vermelha.Planejava colocá-la numa jarra bem bonita no centro da mesa da sala´onde ela iria, afinal, exalar sua fragrância reinando absoluta sem pudor e questionamento.
O que encontrou foi sua rosa desfalecida, despetalada . Com lágrima nos olhos recolheu as pétalas já não mais vermelhas (em tom rubi )e levemente ressecadas, mas que ainda exalava um pouco do perfume do “primeiro encontro”.
Buscou um livro na estante e nele depositou as fragmentos de ternura.