quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Tarde sem vento


Uma sensação de sufoco por causa do calor fora de época ou por motivos menos climáticos.

O fim de tarde não trazia boas promessas ou um horizonte belo. O cinza da cidade se espalhava pela alma ou o cinza da alma nublava os olhos.

Um bando de andorinhas alardeava o verão fora de hora.

No meio da multidão, a sensação de não ser reconhecida por nenhuma daquelas caras de certa forma a confortava. Mas viu esse pequeno conforto ser ameaçado. Esquivava-se da cara conhecida, não queria abraços, beijos e – o pior- trocar palavras. Conseguiu escapar.

Respirou fundo e venceu a fumaça da comida de rua e dos veículos feito formigas atarantadas em fim de dia.

Venceu o medo, o enfado e procurou em vão as tais andorinhas. Decerto foram anunciar o verão em outra freguesia.

Os ruídos ensurdecedores se transformaram em silêncio opressor. Estava chegando em casa, carregando nos ombros o peso de viver, o peso do mundo.

5 comentários:

Walnize disse...

A pressa em postar um comentário não me fez buscar o autor da frase"Para criar é preciso ser insatisfeito".Concordo com ela,pois nos momentos em que estamos mais vulneráveis conseguimos passar a dor sem máscaras!
Seu texto me passou esta exposição poética!
Walnize

Ana Paula Motta disse...

Às vezes os textos parecem mesmos nervos expostos, para o bem e para o mal...

Sonia Schmorantz disse...

Espero que estas andorinhas venham anunciar o verão aqui, cansamos do frio e da ameaça da gripe...
Mas há dias assim, sentimo-nos sozinhos em meio a multidão, e é assim que queremos estar, por isso o desvio, o atravessar a rua se alguem ameaça este estado de solidão..
Gostei muito do texto!
Um abraço e boa semana

Ana Paula Motta disse...

Obrigada pelos elogios,Sonia. Boa semana pra vc tb. O frio já voltou aqui.

antonior disse...

Vemos o mundo exterior da cor do nosso interior e a cor com que vemos o exterior influencia o interior. Quando tudo está cinzento a questão é como quebrar o círculo.

Até breve.